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Archive for 19 de Março, 2010

SOBRE CUBA E ALGO MAIS

Posted by * em 19/03/2010

Havia mais controle social imediato, mais coacção política revolucionária e, neste sentido, menos liberdade na Paris do final do século XVIII e início do século XIX do que nas plácidas planícies do interior francês, onde reinava, tranquilamente, a ordem feudal. Prova isso que o capitalismo era pior do que o feudalismo? Prova isso que o feudalismo era um regime mais humano? Se seguíssemos a pouco dialéctica e superficial mentalidade filistéia, que pulula nos meios de comunicação, sim, provaria.

É característico da burguesia abordar as questões ideológicas de modo abstracto, o que, de resto, tem fundas raízes no próprio carácter das relações baseadas na troca mercantil, reguladas pelo dinheiro, equivalente universal que transforma toda e qualquer mercadoria em outra de igual valor. Assim, o filisteu olha, enternecido, para os conceitos de liberdade, igualdade, violência, etc., de modo ahistórico, abstracto (a liberdade, por exemplo, é vista, abstractamente, como “liberdade em geral”, a liberdade das raposas é igualada à liberdade das galinhas). Esta abordagem abstracta, conjugada com a tendência indutiva de cunho empirista, faz, ao nível do senso comum, maravilhas em termos de estupidificação maximizada. No entanto, como dizia o velho Hegel, a verdade é sempre concreta. Há que fitar bem os conceitos com que os ideólogos burgueses gostam de se mascarar e descobrir o verdadeiro rosto que eles escondem.

Se, por exemplo, analisarmos historicamente a questão da liberdade e da coacção, veremos que em qualquer formação económico-social, a coacção é tão maior quanto mais se joga o destino dessa mesma formação, ou seja, quanto maior a possibilidade de uma contra-revolução ou de uma revolução. Em termos mundiais, o capitalismo foi mais agressivo nos lugares e momentos em que lutava contra a ordem feudal ou, mais tarde, onde e quando era necessário defender o capitalismo perante a possibilidade de viragem revolucionária (ou ainda, quando se tratava de passar à ofensiva em termos de luta pela partilha interimperialista). Quando um regime social se sente seguro, pode permitir uma maior liberdade, certo de que essa maior liberdade não o põe em causa em termos imediatos. Claro que há hoje mais liberdade em França do que em Honduras e, no entanto, estamos a falar de dois países capitalistas. Por que será que há mais liberdade em França? Será do guaraná?

Cuba é um país que tenta, numa luta de vida ou morte, manter viva a chama de uma  nova ordem social, livre da exploração capitalista. É uma pequena ilha, cercada e acossada pelo imperialismo. É natural que seja difícil garantir uma grande liberdade nestas condições, é natural que haja restrições à liberdade. É natural que não se permita não só a exploração capitalista como a sua defesa activa. É natural que haja a necessidade de restringir a saída de mão de obra qualificada que, tendo obtido a sua formação à custa do esforço social, poderia, no entanto, mandando os demais para as cucuias, ter talvez, reconheçamos, um modo de vida melhor em países imperialistas, onde grassa a baixa qualificação e há uma maior disparidade social entre trabalho intelectual e manual. É natural que,  infelizmente, no vórtice do processo, seja, por vezes, difícil distinguir o necessário do exagero, o correcto do incorrecto, e que haja alguns exemplos de   fenómenos que entrem mesmo em contradição com os ideias comunistas. Mas a revolução não é um passeio à beira-mar e, em termos gerais, o caminho é o da construção de uma sociedade muito mais humana do que a capitalista. Se Cuba seguisse todos os conselhos que as cândidas almas democrático-burguesas lhe dão diariamente, tornar-se-ia, em pouco tempo, mais um Haiti à beira-caribe plantado, mais um país prostituído e dominado,  com a típica  exploração capitalista, opressão, roubalheira, miséria, analfabetismo, desemprego e pérolas que tais.

Sim, em Cuba não é permitida a defesa activa do regime de exploração do homem pelo homem.  Em Cuba há  essa restrição à liberdade. O difícil seria imaginar o contrário, num país que estivesse a instaurar um novo regime social. Não são permitidos actos práticos que visem o retorno à exploração capitalista, como também nos países capitalistas não se permite que se pretenda reinstalar a servidão, a escravatura, o canibalismo, etc. Claro que um canibal tem menos liberdade onde o canibalismo seja proibido e muito pode chorar pela liberdade perdida. Temos pena…

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MESTRES NA CONTRACENA

Posted by J. Vasco em 19/03/2010

O Teatro dos Aloés tem em cena uma interessantíssima peça do italiano Spiro Scimone, intitulada O Saguão. Há nela uma estranha mistura entre o universo de Beckett e o humanismo de Chaplin. Os sentimentos mais profundos emergem das situações mais anódinas e desesperantes.

O Teatro dos Aloés já leva trinta anos de existência. Num quadro de franco desinvestimento na cultura, a sua gente persiste e insiste, a poder de amor, entrega e trabalho, em mostrar a sua arte às populações dos subúrbios lisboetas. Sem pedir nada em troca. Apenas pelo gosto de representar. E principalmente, como dizem nos seus textos, porque acreditam na utilidade do teatro enquanto espaço e tempo privilegiados de partilha de reflexões, questionamentos e sentimentos. O seu trabalho é altamente meritório, ainda que muitas vezes ignorado e insuficientemente apoiado.

E no caso particular de O Saguão, os dois actores (Luís Barros e João de Brito) que aí vêem numa fotografia de cena são de alto quilate. São mestres na contracena e na inter-relação. Dão às suas personagens uma dimensão humana comovente.

 

Exibições da peça:

17 a 28 de Março – Recreios da Amadora
9 e 10 de Abril – Teatro Garcia de Resende (Évora)
7 a 9 de Maio – Fórum Romeu Correia (Almada)
16 a 27 de Junho – Teatro Meridional (Lisboa)

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CORRO SEMPRE EM DIRECÇÃO AO MAR

Posted by J. Vasco em 19/03/2010

Les quatre cents coups é um dos grandes filmes de François Truffaut. Um dos mais celebrados, também – e justamente.

«Quatre cents coups» é uma expressão idiomática francesa que anda perto do dito português «trinta por uma linha».

Antoine Doinel, na verdade, tanto recebe quatrocentos golpes, se adoptarmos uma tradução mais à letra do título do filme, como faz trinta por uma linha para fugir ao autoritarismo escolar, à indiferença familiar e à hostilidade envolvente.

O paralítico final do filme é coisa apenas ao alcance dos génios. (Satyajit Ray, que Jyoti Gomes já aqui recordou, ficou tão impressionado com ele que haveria de utilizar um dispositivo semelhante para o final do seu belíssimo filme «feminista» Charulata). Ali está tudo, em condensado: o sofrimento, a comoção, a esperança, a desesperança, a alegria, a tristeza. Tudo em suspenso. Momento de alívio, sim, mas como será o futuro?

E depois há todo o plano-sequência da fuga, longo, cumulativo, como a música indiana.

Para onde foges, Antoine?

Não sei, corro sempre em direcção ao mar.

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