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«CUBA – A VERDADE DOS FACTOS»

Posted by J. Vasco em 13/03/2010

Desculpem os leitores a longa citação que se vai seguir. Na realidade, a reprodução na íntegra de um artigo de Ângelo Alves dado à estampa na última edição do Avante!. Acontece que, face à hipocrisia grassante na comunicação social, faz falta mudar a face ao disco, e este artigo cumpre essa função na perfeição.

Notem os leitores: no mundo da comunicação social do sistema, um morto do «mundo civilizado», das «democracias ocidentais», um morto representante «do nosso modo de vida», das causas da «democracia» e da «liberdade», é sempre humanizado, apresentado ao detalhe, com nome, família, sentimentos, percurso de vida, projectos, relacionamentos. As mais das vezes reconstituem-se mesmo as horas, os minutos e os segundos que precederam o momento da morte.

Já aos maus mortos – os mortos do imperialismo, os milhares de civis e de resistentes que tombam diariamente na Palestina, no Afeganistão, no Iraque, na Colômbia, a poder de «democráticos» e «livres» bombardeamentos, assassinatos «selectivos», execuções de populações inteiras, utilização de fósforo branco, torturas, checkpoints, humilhações e sevícias diárias – fica-lhes reservado o rodapé de telejornal, o anonimato, o número, a perda de identidade, o lugar do Outro, daquele que está excluído do mundo dos humanos. Quando não se chega ao ponto, coisa que não acontece apenas episodicamente, de elogiar e de encomiar a actuação dos bravos do pelotão da «civilização» ocidental. 

                                                      

Cuba – a verdade dos factos

«A propósito da morte de Orlando Tamaya desenvolve-se na comunicação social dominante, internacional e nacional, uma intensa campanha contra Cuba. Uma situação lamentável é aproveitada para fazer reviver o chorrilho de acusações e preconceitos anticomunistas e para dar fôlego às manobras de ingerência e tentativa de isolamento contra Cuba, o seu povo e a sua Revolução. Alguns dos que até ao momento da sua morte nem sequer sabiam da existência de Orlando Tamayo elegem-no agora como «mártir» da «luta pela democracia». Para tal ocultam convenientemente que as condenações de Orlando Tamayo nada tiveram a ver com questões políticas. Ocultam que Tamayo era um cidadão julgado e condenado desde 1993 por sucessivos crimes previstos na Lei e na Constituição do seu País como os de violação de domicílio, de agressão grave, de posse de arma, de burla, alteração da ordem e desordem pública. Ocultam que Tamayo foi libertado sob fiança em Março de 2003 e que foi novamente preso após reincidência e que nem a lista dos chamados «presos políticos», elaborada em 2003 pela então Comissão de Direitos Humanos da ONU como elemento de ataque contra Cuba, incluía o seu nome. Orlando Tamayo não era um preso político, reivindicou para si essa condição em função da acumulação de penas, e os grupúsculos da chamada «oposição» cubana viram na instrumentalização dessa sua opção uma oportunidade para recuperar da sua descredibilização, avançando com medidas como a da canalização de verbas da fundação cubano-americana para a sua família.

«Os mesmos que acusam Cuba de ter «assassinado premeditadamente» Orlando Tamayo ocultam que não há registo de maus tratos por parte do sistema prisional cubano. Ocultam que, pelo contrário, tudo foi feito para o tentar demover da sua greve da fome e que Orlando sempre foi acompanhado pelos serviços médicos cubanos, como o demonstra o facto de ter sido operado em 2009 a um tumor cerebral. Os que acusam Cuba de ter assassinado Tamayo são os mesmos que ocultam que a sua greve de fome foi incentivada por organizações como as «damas de branco», a fundação cubano-americana ou a rádio que ilegalmente transmite sinal a partir de Miami. A morte de Orlando Tamayo deve ser lamentada, este cidadão cubano não merecia morrer, mas os responsáveis pela sua morte são os que o incentivaram a levar a sua decisão até às últimas consequências. Os mesmos que destilam o seu ódio anticomunista a propósito deste caso são os mesmos que colaboram com aqueles que na ilha de Cuba, na base militar dos EUA de Guantanamo, mantêm, sem direito a acusação e a julgamento, presos que, como está sobejamente provado, foram e são submetidos às mais horrendas torturas, privações, maus-tratos e humilhações. São os mesmos que se calam perante os 30 470 cidadãos assassinados pelos paramilitares colombianos nos últimos 20 anos, perante o golpe de estado nas Honduras e o assassinato de militantes pela democracia, perante o criminoso bloqueio contra Cuba, a reaccionária posição comum da União Europeia face a este País ou a infame decisão da Administração Obama de incluir Cuba na lista de patrocinadores de terrorismo. São os mesmo que esquecem as centenas de vítimas cubanas do terrorismo norte-americano, os mesmos que fingem não ver as denúncias da infiltração de grupos de comandos colombianos na Venezuela com uma lista de execuções de dirigentes comunistas e progressistas venezuelanos ou que classificam como «um sucesso» os recentes massacres de dezenas de civis no Afeganistão.

«Mas esses que instrumentalizam a morte de um homem para prosseguir a sua ofensiva anticomunista têm dois problemas. O primeiro é a verdade: Cuba não é um Estado opressor e agressor e a sua população sabe-o bem. O segundo é a realidade: Cuba lidera, com outros países da América Latina, processos de afirmação progressista e de integração regional que estão a reduzir o campo de manobra daqueles que continuam a insistir na conspiração para manter o seu domínio na região.».

 

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6 Respostas to “«CUBA – A VERDADE DOS FACTOS»”

  1. Snow said

    Na nossa ditadura também eram todos muito humanos.

    Não há pachorra para fascistas filhas da puta como a Sra. A vossa “utopia” já a conheço e não a quero nem agradeço. Não preciso que me libertem. Sei bem o que quero para mim.

    O que é verdadeiramente grave no comunismo é que eles não foram piores porque falharam: eles foram melhores porque falharam. A desumanização, o tratar as pessoas como números, a eliminação dos dissidentes, a total definiçaõ estatal da vida de cada pessoa a todos os níveis – até ao mais íntimo: tudo isso estava previsto desde o início. Não foi isso que falhou. O que falhou foi que não conseguiram tirar toda a réstia de humanidade e liberdade e sonho em cada um.

    Se o comunismo é menos mau na américa latina, é por causa do forte enraízamento da cultura católica humanista naquelas populações. É um falso comunismo, melhorado é certo, mas igual no seu fundamento. Che Guevara, um psicopata sanguinário, adorado pelos comunistas como Jesus Cristo para os Católicos, mas absolutamente oposto. Para Che, era crime, punivel com a morte, ser burguês, ter qualquer propriedade, ter opinião, etc etc. Com ele não havia julgamentos sumários, havia execuções sumárias.

    O comunismo foi sempre contra a liberdade. E quem é contra a liberdade nunca foi a favor dos povos.

    O seu texto é lamentável. Porque todo ele padece do pecado que acusa: só valoriza os mortos da causa oposta, e limpa com lixívia os da sua causa. Não consigo, nem posso, ter respeito por quem toleraria o meu assassinato a sangue frio por ser um dissidente.

    E por último, o seu título: “a verdade dos factos”. Sempre temi quem acha que tem a verdade. No mundo nada mais mata do que a verdade. O comunismo matou milhões, os jesuítas outros tantos, matam também os islamicos, etc, etc, etc. Diga-me: está disposta a matar para impor a sua verdade?

    Claro que não. Os comunistas usam sempre o colectivo para lavar as suas mãos do sangue que derramam.

    • Anónimo said

      O seu comentário, Snow, é a prova mais cabal da sua inteligência aguda e fina, ainda mais visível no facto de tratar um Vasco por Srª. Também demonstra eloquentemente a tolerância e o respeito pelos outros que não reconhece nos comunistas, esses «psicopatas sanguinários». Não merece, por conseguinte, nenhum apontamento. É, simplesmente, brilhante.
      Passar bem.

      J. Vasco

      • Snow said

        Caro Sr. Vasco,

        Entendo que tenho a obrigação de ser intolerante com quem propagandeia a intolerância, o ódio, a inveja e o dogmatismo.

        E tenho dificuldade séria em respeitar quem advoga processos de afirmação progressista aos estilo de Cuba e seus aliados. Quem não respeita os homens, não merece o meu respeito.

        Não desejo a nenhum comunista as consequencias de dizer em Cuba o que eu disse. Cuba, esse regime “não” opressor nem agressor.

        Não quer responder, não responda. Tanto se me dá – o que eu quero é que V.Excia. pense um pouco, que já deve ter idade para isso, e suponho que capacidade também.

  2. J. Vasco said

    Snow,

    quer então que eu «pense um pouco» porque já tenho idade e capacidade para isso? Muito bem, não seja modesto, continue a encantar-nos com a sua sapiência luminosa. Ficamos enternecidos com o seu paternalismo, com a sua tentativa de trazer a luz da clarividência aos «psicopatas sanguinários». Mas por que motivo ainda perde tanto tempo connosco?
    Para quem se queixa de «intolerância, ódio, inveja e dogmatismo», os seus comentários, a sua postura e a sua linguagem não estão nada mal, Snow. Oxalá nunca tenhamos de provar o seu democratismo, a sua tolerância e o seu respeito pelos outros.
    Diz também que «quem não respeita os homens» não merece o seu respeito. Mais uma vez, muito bem, Snow. Seja coerente: comece então por se desrespeitar a si próprio.
    No que toca ao teor dos seus comentários em relação a Cuba, lamento: são muito pobrezinhos – e relevam apenas de preconceito e ódio anti-comunista. Com efeito, Cuba não é um estado agressor -nem de outros povos, nem do seu povo. Cuba não move guerras coloniais para pilhagem de recursos e exploração de mão-de-obra. Cuba não invade países e não mata populações inteiras à força de bombas, metralha ou fósforo branco. Cuba não espingardeia, nem reprime, lutas de trabalhadores ou greves. Pelo contrário, Cuba apoia, suporta e acarinha as lutas de libertação dos outros povos. Cuba é solidária com os países pobres, enviando-lhes médicos e quadros técnicos numa dimensão que não tem paralelo com qualquer «democracia ocidental». Cuba é uma pátria de trabalhadores, e não de exploradores.
    Cuba é o paraíso terreno? Não, é uma ilha cercada pelo imperialismo que resiste por acção do seu povo nas circunstâncias mais difíceis. Que tenta, ainda assim, caminhar para o socialismo e consolidar a sua independência. E que resiste garantindo direitos sociais ao seu povo que pedem meças a qualquer «democracia ocidental».
    É óbvio que isto lhe ultrapassa a compreensão, Snow – e por isso o seu desejo é ensinar-nos a «pensar um pouco». Seria uma tragédia, «pensar um pouco» à maneira de Snow. Não o queira fazer, por favor.
    Para além do mais, o seu discurso é demasiado óbvio para ser tomado a sério, por um segundo que seja. Não se esqueça de que os IP’s dos computadores ficam registados.

    Antenciosamente,
    J. Vasco

  3. Snow said

    “Não se esqueça de que os IP’s dos computadores ficam registados.”

    Nada como uma ameaçazinha (não sei bem de quê), não é?

    Mas aqui vai a minha humilde resposta:
    – Cuba é um estado opressor. É um estado que não permite eleições livres, e que usa a força para manter os privilégios da sua classe dirigente. É verdade, não são “burgueses” nem “capitalistas”. São “socialistas” que usam a força do Estado para reservarem para si o poder e privilégios. Ao contrário do que diz, é uma pátria de exploradores.
    – Cuba não reprime greves, claro. Cuba não permite greves. Sugere que o “capitalismo” siga o exemplo do comunismo?
    – O regime Cubano, na sua instalação, matou em execução sumária vários cidadãos inocentes, pelo “crime” de serem alegadamente “burgueses” ou contrários ao regime.

    Conhece o conceito de duplipensar? É o que tem estado a fazer. Em comparação com qualquer democracia ocidental, Cuba tem mais exploração e estratificação social, é um regime opressor, não existem direitos dos trabalhadores.

    E sobretudo, as pessoas são propriedade do Estado. É um regime que “acredita tanto nas suas virtudes” que não permite que Cubanos abandonem o país.

    É como lhe digo, fala em libertação mas eu só vejo aí escravatura.
    As democracias ocidentais não são perfeitas. Mas não tentam esconder as suas limitações em retórica e duplipensamento.

  4. J. Vasco said

    Snow,

    a sua «humilde resposta» fica gravada a letras de ouro.
    Finalmente explanou a sua sabedoria e até nos ensinou um conceito: o «duplipensar». E nós ficámos a saber que a sociedade cubana é mais «estratificada» que as «democracias ocidentais», que não consagra direitos laborais, que é um regime opressor, e que, não havendo nem «burgueses», nem «capitalistas», é uma «pátria de exploradores». Continue, Snow, continue. O seu arrazoado faz mais pela falência dos seus próprios argumentos do que qualquer contraditório. Em todo o caso, é sempre constrangedor ver uma pessoa cair assim no ridículo.
    Esqueceu-se de falar das maravilhas que podemos encontrar nos países do Caribe e da América Latina que são colónias dos EUA – e, por isso mesmo, «livres e democráticos». Fale-nos então das «eleições livres» nesses países, da miséria social generalizada, do analfabetismo, do desemprego, da ausência de sistemas públicos e gratuitos de saúde. Fale-nos disso Snow. Tudo problemas eliminados da sociedade cubana.
    Esqueceu-se também de falar da violência inaudita usada pela burguesia, para instaurar o capitalismo, contra aqueles que eram «contrários ao regime»: a nobreza, a realeza e o clero, primeiro, e os povos colonizados de África, da América e da Ásia, depois. E aqui não estamos a brincar, Snow, estamos a falar de genocídios, da eliminação física de povos e culturas inteiros, estamos a falar de cinco séculos de colonialismo, de tráfico negreiro, estamos a falar da supressão (da supressão, Snow) dos «índios ocidentais», estamos a falar das Guerras do Ópio contra a China (guerras infames, em nome da «liberdade» e do «mercado»), estamos a falar do tráfico negreiro durante cinco séculos. É este o regime de que se orgulha e que, de forma idiota, compara à guerra civil cubana, igual a qualquer guerra civil: um momento de extrema tensão cujo resultado é a vitória de apenas uma das forças em presença, ou a reacção, ou a revolução. Não lhe agrada esta lei objectiva do desenvolvimento social? Bom, lute contra ela. Será o mesmo que levar a vida a negar a lei da gravidade.
    E esqueceu-se ainda de falar de outra coisa. Esqueceu-se de que a democracia, no ocidente, não está no código genético do capitalismo. Não foi ele que doou ao pobre povo a boa da democracia, não foi o capitalismo que a trouxe. Pelo contrário, todas as conquistas democráticas no ocidente foram arrancadas à burguesia pelo movimento popular em nome do socialismo, no âmbito da luta do socialismo. Do sufrágio universal (o princípio uma pessoa-um voto) aos direitos sociais. Aliás, o facto do conceito de democracia hoje carregar dimensões sociais (que aliás a burguesia tenta rasurar todos os dias) é a prova dessa luta.
    Por fim, a escravatura. Sim, na ilha de Cuba há um pedaço de território em que se pratica a escravatura, a tortura, a detenção sem culpa formada, a humilhação, as sevícias mais incríveis, o terrorismo. Esse pedaço de território chama-se Guantanamo, é administrado pelos EUA (que o ocupam ilegalmente) e aí funciona um campo de concentração atroz. Mas claro, Snow, «livre e democrático».
    Esperamos que continue a aprofundar o conceito de «duplipensamento». E fundamentalmente vá-nos sempre mantendo a par dos adquiridos teóricos que ele lhe vai proporcionando. Nós gostamos de saber mais. Como dizia o outro: «aprender, aprender, aprender sempre».

    J.Vasco

    PS – os IP’s dos computadores ficarem registados não é uma ameaça, é um facto, «Snow».

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