OLHE QUE NÃO

olhequenao.wordpress.com

Archive for 11 de Março, 2010

SER PRECÁRIO

Posted by J. Vasco em 11/03/2010

«Ser precário é ser pau para toda a colher. Ser precário é não poder ter ofício. Ser precário é eventualmente fazer estágios de profissionalização para animar as estatísticas do governo. Ser precário é não ter a certeza de arranjar trabalho amanhã. Ser precário é não ter direito ao subsídio de desemprego, mesmo quando já se trabalhou muito e agora não se tem trabalho. Ser precário é ser obrigado a fazer descontos mesmo quando não se ganhou dinheiro. Ser precário é receber um salário de miséria e engrossar o cabedal das empresas de trabalho temporário, muitas delas nas mãos dos boys e dos manda-chuvas dos grandes partidos. Ser precário é não ser contabilizado nas já extensas listas dos desempregados. Ser precário é trabalhar sem contrato e poder sempre ser despedido sem justa causa. Ser precário é estar sistematicamente «à experiência», por muito comprovadamente experiente que se seja. Ser precário é ser tratado como um profissional liberal quando se vive abaixo de cão. Ser precário é, quase sempre, não escolher ser precário. Ser precário é ter um livro de recibos verdes para evitar milagrosamente que os empregadores tenham de assumir qualquer responsabilidade na construção e manutenção da cadeia de produção da riqueza. Ser precário é não poder ter filhos, porque os patrões não gostam de grávidas, nem de mães competentes, nem de pais demasiado presentes. Ser precário é ser tratado como gado, mas sem ração assegurada. Ser precário é tapar os pequenos e os grandes buracos do capitalismo. Ser precário é não ter a certeza de poder pagar a renda, é ter a certeza de que o dinheiro não dá para todas as facturas. Ser precário é ter de comer menos e menos vezes por dia, excepto quando a família ou os amigos se compadecem. Ser precário é engolir a raiva, é chorar às escondidas para não dar nas vistas, é ter medo de ser etiquetado de rebelde, é ter pânico de que esse rótulo motive a perda de um emprego medíocre mas tão difícil de arranjar. Ser precário é ter vontade de ir para a rua gritar. Ser precário é ser obrigado a ir para a rua gritar. Ser precário é decidir ir para a rua gritar. No dia 1 de Maio. Com todos os outros companheiros precários que por aí andam escondidos. Com todos os que, revoltados com a crescente injustiça social e o aumento exponencial das hostes do precariado, se juntam ao desfile do MAY DAY. Ser precário é, de súbito, ter consciência de que se todos dermos as mãos e batermos os pés, O MUNDO TREME.».

(Texto retirado do movimento/iniciativa May Day)

 

Anúncios

Posted in * | Com as etiquetas : , | Leave a Comment »

«O SÉCULO PASSADO»

Posted by J. Vasco em 11/03/2010

Em 2004, por alturas das comemorações dos 30 anos da revolução de Abril, o inenarrável Durão Barroso disse que o país estava de tanga porque a revolução portuguesa tinha vindo interromper e destruir o crescimento económico dos chamados «anos dourados» do capitalismo. O ambiente social e político já tinha recuado de tal forma em 2004, que estas posições começaram enfim a ver a luz do dia e a ganhar direito de cidade no seio dos próprios órgãos saídos da revolução.

Seis anos passados, Fernando Pinto, director executivo (CEO, no linguajar yuppie) da TAP Portugal, veio a terreiro largar esta pérola: «eu considero que greves é algo do século passado».

Tem o homem razão.

Com efeito, foi no século XX que, nos países capitalistas, através de lutas duríssimas, os trabalhadores conquistaram o direito à greve. Foi no século XX que, nos países capitalistas, com a pressão da revolução social e através de muitas greves, os trabalhadores conquistaram vários direitos sociais: as oito horas de trabalho, as férias pagas, a segurança social, a consagração das funções sociais do estado, o próprio sufrágio universal (o princípio uma pessoa-um voto). (É de crer que nem o mais raivoso anti-comunista esteja disposto a abdicar, para si, destas aquisições históricas do movimento operário). Foi ainda no século XX que o pressuposto básico da greve, o movimento organizado dos trabalhadores, se fortaleceu, consolidou e avançou, tendo chegado ao ponto de levar a cabo uma revolução social que não só efectivou e consagrou direitos, como iniciou a tarefa de erguer um novo modo de produzir e reproduzir o viver comunitário: o socialismo. Tudo isto influenciou decisivamente o surgimento e o desenvolvimento das lutas de libertação dos povos colonizados (Ásia, África, América Latina). Tudo isto foi no século XX, o tal «século passado» de que fala o sr. CEO com um misto de desprezo e de nervoso miudinho.

Percebe-se que assim seja. Fernando Pinto (e Ricardo Salgado, e Belmiro, e Jerónimo Martins, e Américo Amorim, e os representantes políticos dos seus interesses: PS, PSD e CDS-PP) quer voltar aos séculos anteriores ao «século passado». Nos seus sonhos, ele imagina e projecta uma sociedade pré-século XX: uma sociedade com trabalho escravo, sem horários, sem direito à greve, sem organização dos trabalhadores, sem sindicatos, sem a ameaça da sempre presente revolução social, sem o perigo do socialismo. Ele queixa-se do século XX, não em nome do século XXI, não em nome do futuro – mas antes em nome do passado, em nome dos séculos XIX, XVIII, XVII , XVI.

Não terá sorte. Por muito grande, intensa e violenta que seja – e é-o, de facto – a ofensiva social, económica e política da burguesia; por muito que o ambiente político envolvente seja – e é-o, com efeito – propício ao florescer e desabrochar das posições mais retrógradas e reaccionárias – a verdade é que não nos quebrarão a espinha.

Na luta do, e no, presente, o passado é parte e momento da luta.  

Pela nossa parte, ergueremos sempre bem alto a bandeira do «século passado».

Não porque tenhamos em vista um idílico regresso ao passado. Mas porque foi no século XX que se iniciou a luta decisiva, implacável, pelo futuro. Que outros continuaram. Que nós continuaremos. Que outros continuarão.

A despeito da vontadinha do sr. CEO. 

 

Posted in Século passado | Com as etiquetas : | Leave a Comment »