OLHE QUE NÃO

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Archive for Março, 2010

LEITURA OBRIGATÓRIA

Posted by J. Vasco em 31/03/2010

Vejam, vejam aqui o que o Samuel foi desencantar. Leitura mais do que obrigatória. Muito instrutivo, muitíssimo instrutivo.

Obrigado, Cantigueiro!

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FORÇA COMPANHEIRO VASCO – NOS 35 ANOS DA CRIAÇÃO DO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO

Posted by J. Vasco em 31/03/2010

Faz hoje 35 anos que o IV governo provisório (26 de Março de 1975 – 8 de Agosto de 1975), chefiado por Vasco Gonçalves, criou em Portugal o subsídio de desemprego (o mesmo Vasco Gonçalves que, à frente de outros governos provisórios, criou também o salário minímo, o subsídio de férias e o subsídio de natal). Para a vida de muitos milhares de portugueses em situações sociais desesperantes, é ainda, face ao persistente desemprego, o único e magro provento com que contam, resultado dos seus descontos e não, como os propagandistas neoliberais querem fazer crer, benesses do estado ou destemperamento orçamental. A medida da sua força, nos dias que correm, pode ser avaliada, simultaneamente, em dois tabuleiros: é encarado naturalmentecomo o ar que se respira, como se não tivesse história, por grande parte da população; e é alvo dos maiores ataques (no limite: para o liquidar) por parte dos partidos da burguesia.

A sua implementação foi possível porque havia, obviamente, um governo provisório, na sua geometria variável, vinculado à luta dos trabalhadores, ao seu objectivo socialista, e com força política bastante para avançar com ousadia e firmeza. Mas foi fundamentalmente porque o movimento de massas se desenvolvia e arrancava conquistas democráticas aos exploradores, nomeadamente com as nacionalizações dos sectores-chave da economia, que o governo provisório pôde actuar desse modo. Uma lição para o futuro.

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GIOVANNA MARINI

Posted by J. Vasco em 31/03/2010

Infelizmente, o ímpar trabalho que o corso Michel Giacometti realizou em Portugal é ainda hoje pouco conhecido – e por isso nada acarinhado. A minúcia, o amor e a paixão com que se lançou à recolha das canções que acompanhavam o quotidiano popular foram as marcas de um trabalho pioneiro que desgraçadamente não teve seguimento.

Giovanna Marini, em Itália, sua terra natal, dedicou-se também à recolha e ao tratamento das canções de tradição oral do seu povo. Essas canções de luta e de trabalho, de festa e de esperança, de resistência e de angústias, formaram o corpo de um Novo Cancioneiro Italiano, por si criado.

Giovanna, com formação em guitarra clássica, inventou mesmo um sistema de notação musical na base dessas canções de tradição oral. Colaborou com vários intelectuais da esquerda italiana, como PasoliniFo ou Calvino, entre outros. 

Como se pode ler aqui, no seu site oficial (ao qual se recomenda vivamente uma visita), «em 1964 Bella Ciao, espectáculo de canto político e social, realizado em Spoleto com grande escândalo face a um público muito chic e pouco habituado, deu-lhe a possibilidade de cantar e de recolher cantos populares pela Itália inteira».

Quem não a conheça, deve passar a conhecê-la. Quem já a conhece, que continue a acompanhar o seu trabalho sério, dedicado, longe dos holofotes do mercado, e de grande, de enorme, qualidade.

 

Aqui, Canti di lotta e di lavoro, excertos de entrevistas, de canções e de concertos:

Aqui, a célebre canção Partono gli emigranti, cheia de dolência e ao mesmo tempo de firmeza:

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BURRICE ILIMITADA & MALUQUICE INFINITA

Posted by * em 30/03/2010

Segundo uma sondagem da “Harris Interactive”

  • aproximadamente 57% dos republicanos (mais de metade!) acredita que “Obama é muçulmano”;
  • aproximadamente 45% dos republicanos (quase metade!) tem a certeza que ele “não nasceu nos EUA”;
  • aproximadamente 24% dos republicanos (cerca de um em cada quatro!) tem a certeza de que ele é o próprio “anticristo“.

(sondagem baseada em inquéritos aplicados a mais de dois mil eleitores republicanos)

Fonte: http://aeiou.expresso.pt/obama-e-o-anticristo=f572812

Reparem que, extrapolando os resultados da amostra para o universo, são muitos e  muitos milhões de burromalucos (com um grande poder em relação ao destino da humanidade, embora não tenham agora  a presidência dos EUA). Em Portugal e no mundo, os opinion makers de plantão acham estranho que os comunistas digam que Obama é o actual representante do imperialismo norte-americano. Mas, ao mesmo tempo, os diligentes fazedores-de-opinião são carinhosamente condescendentes em relação a estes milhões de  perigosos alucinados, para os quais Obama é o anticristo muçulmano, nascido sabe-se lá em que país ou planeta.

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CRÓNICAS A METRO

Posted by Patrícia B. em 30/03/2010

Há já alguns dias me tem apetecido muito responder a dois artigos do jornal Metro publicados um no dia 18 de Março e outro no dia 25 do mesmo mês. Quem quer que se desloque no metro de Lisboa ou do Porto pode desfrutar semanalmente (pelo menos às quintas-feiras) de uma delícia metropolitana incomparável: as crónicas de um senhor chamado Luciano Amaral, e que segundo informação do mesmo jornal é professor da Universidade Nova de Lisboa. Destaco estes dois artigos por me parecerem demasiado maus para não serem referidos.

 Durante aqueles longos minutos das viagens subterrâneas no meio dos trambolhões e dos turbilhões, dos pi pi pi pi pi em que a gente apressada tenta ainda forçar as portas, e às vezes consegue e chega de língua de fora e sorriso de vitória nos lábios; em que outras mais azaradas chegam a dar murros no vidro da carruagem; entre olhares que se evitam, e o sono matinal que se tenta espantar… lá entra também o jornalinho franchising onde aparece o senhor LA. Às vezes pergunto-me porque é que continuo a ler os artiguinhos ora na página 8 ora na página 9, se bem já me avisaram que ler em movimento não faz bem à saúde ocular e pelo vistos também aborrece bastante o estômago.

Então no dia 18 li com espanto (apenas porque era o primeiro encontro com LA) que “Para as opiniões públicas ocidentais [quem são estas entidades?], sempre interessou mais demolir Bush do que acarinhar essa espécie rara que é uma democracia representativa no Médio Oriente.” E posto isto a conclusão é: vamos lá ter muito carinho pelo Iraque e por Bush, vá lá. Até já houve “duas eleições legislativas em sete anos”! Duas, ein! Duas! E parece até que o bom do George W  “Bush dizia em 2003 que queria ver, no prazo de cinco a dez anos, uma democracia funcional no Iraque que servisse de exemplo aos vizinhos. Passaram sete anos e já esteve mais longe. Ninguém cá fora agradecerá a Bush nem se esforçará muito para apoiar esse regime. Mas ele lá vai fazendo o seu caminho.” LA não está informado, LA não informa, LA acredita no Pai Natal, ups, numa “Democracia Iraquiana” desenhada e prevista por Bush.

“Iraq Democracy dropped from sky” nicholsoncartoons.com.au/cartoon_3378.html

O artigo do dia 25 é também bastante comovente pelos ensinamentos com que nos presenteia, começando logo pelo título, “Pobre Estado”, em que o adjectivo escolhido tem a magnífica capacidade de resumir a ideia-forte das linhas que se seguem. Não é que no meio de um autêntico desabafo se pode ler: “Confesso que nunca percebi como é que ajudar o capital financeiro com empréstimos e garantias estatais era combatê-lo. Mas enfim, eram outros tempos. É que agora é o pobre do Estado a precisar de assistência.” Depois da confissão segue-se outro desabafo em tom de comentário-político-em-bico-dos-pés: “Sempre me pareceu que a principal vítima da crise financeira não seria o fantasmagórico ‘neoliberalismo’ (que ninguém ainda explicou o que é) mas o Estado-Providência ocidental.” E agora o esclarecimento: “Foi o ‘capital financeiro’ [aqui LA ainda não tinha ido investigar os manuais de Economia, esperemos que hoje já saiba mais qualquer coisa] que permitiu a compra de casa própria para quase todos; […]que permitiu a compra de carro para o povo; foi ainda o capital financeiro quem pôs cartões de crédito no seu bolso.” Procurei, mas não dei por nada.

Indignei-me, fechei o jornal e graças ao neoliberalismo e ao amável capital financeiro eram já horas de abandonar o metro e de ir preencher o próximo recibo verde.

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A “BELEZA” DO CAPITALISMO RESTAURADO

Posted by * em 27/03/2010

A Katastróica livrou a Rússia do malvado comunismo

(com a suas utópicas e perigosas teorias acerca do bem social)

e trouxe de volta o capitalismo e as suas “maravilhas”.

Vídeo dedicado aos dermocratas

(“dermo” em russo significa o mesmo que “shit” em inglês)

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RESPONSABILIDADES HISTÓRICAS ASSUMIDAS

Posted by J. Vasco em 27/03/2010

«No final do seu discurso, a presidente do PSD foi aplaudida de pé pelo grupo parlamentar social democrata e, a seguir, ouviu um elogio do líder parlamentar do PS. Francisco Assis disse a Manuela Ferreira Leite que, ao abster-se em relação ao projeto de resolução do PS, “o PSD assume as suas responsabilidades históricas como grande partido da oposição que é hoje”. “É talvez, senhora deputada, uma das últimas decisões que terá tomado enquanto líder do seu partido”, referiu o líder parlamentar do PS, considerando que essa decisão “prestigia a política e enobrece o PSD”. Na resposta, Manuela Ferreira Leite disse seguir o lema de Sá Carneiro primeiro o país, de seguida o partido”, que “não pode ficar só pelas palavras”, e lamentou “ter sentido que era absolutamente essencial para o país” a abstenção do PSD.».

Expresso on line

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GRANDE MÚSICA CUBANA

Posted by * em 26/03/2010

UNICORNIO

Mi unicornio azul/ ayer se me perdió,/ pastando lo dejé/ y desapareció./ Cualquier información/ bien la voy a pagar./ Las flores que dejó/ no me han querido hablar./ Mi unicornio azul/ ayer se me perdió,/ no sé si se me fue,/ no sé si se extravió,/ y yo no tengo más/ que un unicornio azul./ Si alguien sabe de él,/ le ruego información,/ cien mil o un millón/ yo pagaré./ Mi unicornio azul/ se me ha perdido ayer,/ se fue…

Mi unicornio y yo/ hicimos amistad,/ un poco con amor,/ un poco con verdad./ Con su cuerno de añil/ pescaba una canción,/ saberla compartir/ era su vocación./ Mi unicornio azul/ ayer se me perdió,/ y puede parecer/ acaso una obsesión,/ pero no tengo más/ que un unicornio azul/ y aunque tuviera dos/ yo solo quiero aquel./ Cualquier información/ la pagaré./ Mi unicornio azul/ se me ha perdido ayer,/ se fue…

Silvio Rodriguez

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PS E PSD: PARTIDOS COLAÇOS

Posted by J. Vasco em 25/03/2010

Há trinta e cinco anos, o experimentado e agudo contra-revolucionário profissional Frank Carlucci chegou a Portugal, viu mais longe e visou certo. Face ao susto de um processo revolucionário a caminho do socialismo, Carlucci, para garantir a vigência da exploração capitalista na formação sócio-económica portuguesa, abandonou no momento oportuno o voluntarioso, mas desastrado, Spínola, e apostou no cavalo (de Tróia) mais fresco e que melhores garantias lhe oferecia: Mário Soares e o PS.

Para os interesses da burguesia a jogada foi de mestre, já que nessa altura o PS tinha uma base eleitoral e militante cavada no mundo laboral, arrastava alguns sectores da social-democracia de esquerda, e, a coberto de uma linguagem «socialista» e de «esquerda», podia com mais eficácia, a partir mesmo das instituições e do poder político, a partir de «cima»,  atacar as conquistas sociais e económicas da revolução, travar o processo revolucionário e dar expressão política e constitucional à contra-revolução. O PS desempenhava-se prodigiosamente destas tarefas, de conteúdo abertamente direitista e contra-revolucionário, de braço dado com os outros «partidos da ordem» & CIA. Limitada: PPD, CDS, militares spinolistas, e outras velharias. Mas tinha um trunfo na manga para a demagogia passar melhor: essa tal base de apoio social-democrata, de «esquerda», que se distinguia dos sectores mais fanatizados, ressabiados e saudosos do fascismo, agrupados em torno do PPD de Sá-Carneiro.

Trinta e cinco anos passaram…

PS e PSD – à vez ou mancomunados, com gritaria e estardalhaço ou com carícias e palavras melodiosas – lá foram levando a cabo um fastidioso, aturado e paciente trabalho de sapa: institucionalizar a contra-revolução, normalizá-la, elevá-la (tarefa a mais difícil, a mais engenhosa) a modo «natural», «espontâneo», a-histórico, de produzir e reproduzir o viver em comunidade. Os episódios foram muitos e seria nauseante recordá-los aqui detalhadamente.

Em relação ao PS, a única coisa que mudou durante este lapso temporal foi que nem em termos de base eleitoral ele se distingue já, de forma clara e demarcada, do PSD. As direcções dos dois partidos propõem-se gerir competentemente os interesses dos capitalistas portugueses. Diferem apenas em termos de pormenor: os timings para implementar esta ou aquela medida, os ritmos de exploração a coordenar, as prioridades a ter em conta no investimento, a extensão e a profundidade dos cortes nas funções sociais do estado, etc. E se o PSD, em geral, convive mal com o regime constitucional saído da revolução de Abril, o PS desliza perigosamente para esse campo, e a todo o gás.

Que haja hoje em dia alguns patuscos que se dedicam a comparar minudências entre os dois partidos para, no movimento seguinte, encontrarem afinal «profundas diferenças» entre eles – não nos pode espantar: é jogada que alimenta a legitimação do rotativismo. Mas que algumas pessoas que se dizem de «esquerda», a cada acto eleitoral, reaqueçam pela milésima primeira vez o tema, ou cheguem ao ponto de lobrigar neste governo uma cidadela acossada pelas direitas, só nos pode agastar, fazer encolher os ombros e mandá-las passear.

Ou então, numa derradeira e desesperada tentativa de diálogo, lançar-lhes esta pergunta: que comentário avançam em relação à aprovação do PEC? Vá lá, cheguem-se à frente e respondam-nos… Digam qualquer coisa de esquerda, qualquer coisa de civilizado, qualquer coisa…

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«A ORIGEM DO MUNDO»: COURBET, UM DISCÍPULO DE FEUERBACH?

Posted by J. Vasco em 24/03/2010

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O MOMENTO PARA HOPPER: PRESENTE COM PASSADO E COM FUTURO (V)

Posted by J. Vasco em 24/03/2010

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PLANETA ÁGUA

Posted by * em 22/03/2010

Uma criança morre a cada 15 segundos

devido à falta de água potável e saneamento

Fonte: http://tv1.rtp.pt/noticias/?article=146449&visual=3&layout=10

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UM RIO DE SANGUE

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

PORT WINE

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bars.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

 

Joaquim Namorado, in A Poesia Necessária

 

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«AMANHÃS QUE CANTAM»??!!

Posted by J. Vasco em 21/03/2010

A expressão «os amanhãs que cantam» é, de forma useira e vezeira, utilizada pelos snobs do costume para apoucar uma suposta visão messiânica da história que os revolucionários, em geral, sustentariam e que os neo-realistas, em particular, reservariam, como correlato estético, para o campo da arte. Mais uma vez, o preconceito e a mesquinhez dão as mãos, servindo de solo para as mais desbragadas catilinárias.

A visão da história dos mais altos representantes teóricos do movimento neo-realista português era tudo menos simplista, tosca ou mecanicista. Era, pelo contrário, bem dialéctica, rica e anti-messiânica. E não só estava pensada, como adquiriu mesmo, algumas vezes, a forma e o conteúdo estéticos. «Amanhãs que cantam»? Olhem que não…

 

COMPLICAÇÃO

As ondas indo, as ondas vindo — as ondas indo e vindo sem
parar um momento.
As horas atrás das horas, por mais iguais sempre outras.
E ter de subir a encosta para a poder descer.
E ter de vencer o vento.
E ter de lutar.
Um obstáculo para cada novo passo depois de cada passo.
As complicações, os atritos para as coisas mais simples.
E o fim sempre longe, mais longe, eternamente longe.

Ah mas antes isso!

Ainda bem que o mar não cessa de ir e vir constantemente.
Ainda bem que tudo é infinitamente difícil.
Ainda bem que temos de escalar montanhas e que elas vão
sendo cada vez mais altas. Ainda bem que o vento nos oferece resistência
e o fim é infinito.

Ainda bem.
Antes isso.
50 000 vezes isso à igualdade fútil da planície.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

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VENEZUELA

Posted by * em 20/03/2010

“A percentagem de pobres na Venezuela caiu para 23 por cento. Quando comparados os dados actuais com os últimos indicadores existentes antes do início do processo revolucionário bolivariano, conclui-se que, em 1996, a pobreza afectava cerca de 70 por cento da população e a pobreza extrema 40 por cento.”

(dados do Instituto Nacional de Estatística. As estatísticas estão conformes com os padrões da Comissão Económica para a América Latina e o Caribe e do Banco Mundial)

jornal “Avante!”, 11/03/2010

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SOBRE CUBA E ALGO MAIS

Posted by * em 19/03/2010

Havia mais controle social imediato, mais coacção política revolucionária e, neste sentido, menos liberdade na Paris do final do século XVIII e início do século XIX do que nas plácidas planícies do interior francês, onde reinava, tranquilamente, a ordem feudal. Prova isso que o capitalismo era pior do que o feudalismo? Prova isso que o feudalismo era um regime mais humano? Se seguíssemos a pouco dialéctica e superficial mentalidade filistéia, que pulula nos meios de comunicação, sim, provaria.

É característico da burguesia abordar as questões ideológicas de modo abstracto, o que, de resto, tem fundas raízes no próprio carácter das relações baseadas na troca mercantil, reguladas pelo dinheiro, equivalente universal que transforma toda e qualquer mercadoria em outra de igual valor. Assim, o filisteu olha, enternecido, para os conceitos de liberdade, igualdade, violência, etc., de modo ahistórico, abstracto (a liberdade, por exemplo, é vista, abstractamente, como “liberdade em geral”, a liberdade das raposas é igualada à liberdade das galinhas). Esta abordagem abstracta, conjugada com a tendência indutiva de cunho empirista, faz, ao nível do senso comum, maravilhas em termos de estupidificação maximizada. No entanto, como dizia o velho Hegel, a verdade é sempre concreta. Há que fitar bem os conceitos com que os ideólogos burgueses gostam de se mascarar e descobrir o verdadeiro rosto que eles escondem.

Se, por exemplo, analisarmos historicamente a questão da liberdade e da coacção, veremos que em qualquer formação económico-social, a coacção é tão maior quanto mais se joga o destino dessa mesma formação, ou seja, quanto maior a possibilidade de uma contra-revolução ou de uma revolução. Em termos mundiais, o capitalismo foi mais agressivo nos lugares e momentos em que lutava contra a ordem feudal ou, mais tarde, onde e quando era necessário defender o capitalismo perante a possibilidade de viragem revolucionária (ou ainda, quando se tratava de passar à ofensiva em termos de luta pela partilha interimperialista). Quando um regime social se sente seguro, pode permitir uma maior liberdade, certo de que essa maior liberdade não o põe em causa em termos imediatos. Claro que há hoje mais liberdade em França do que em Honduras e, no entanto, estamos a falar de dois países capitalistas. Por que será que há mais liberdade em França? Será do guaraná?

Cuba é um país que tenta, numa luta de vida ou morte, manter viva a chama de uma  nova ordem social, livre da exploração capitalista. É uma pequena ilha, cercada e acossada pelo imperialismo. É natural que seja difícil garantir uma grande liberdade nestas condições, é natural que haja restrições à liberdade. É natural que não se permita não só a exploração capitalista como a sua defesa activa. É natural que haja a necessidade de restringir a saída de mão de obra qualificada que, tendo obtido a sua formação à custa do esforço social, poderia, no entanto, mandando os demais para as cucuias, ter talvez, reconheçamos, um modo de vida melhor em países imperialistas, onde grassa a baixa qualificação e há uma maior disparidade social entre trabalho intelectual e manual. É natural que,  infelizmente, no vórtice do processo, seja, por vezes, difícil distinguir o necessário do exagero, o correcto do incorrecto, e que haja alguns exemplos de   fenómenos que entrem mesmo em contradição com os ideias comunistas. Mas a revolução não é um passeio à beira-mar e, em termos gerais, o caminho é o da construção de uma sociedade muito mais humana do que a capitalista. Se Cuba seguisse todos os conselhos que as cândidas almas democrático-burguesas lhe dão diariamente, tornar-se-ia, em pouco tempo, mais um Haiti à beira-caribe plantado, mais um país prostituído e dominado,  com a típica  exploração capitalista, opressão, roubalheira, miséria, analfabetismo, desemprego e pérolas que tais.

Sim, em Cuba não é permitida a defesa activa do regime de exploração do homem pelo homem.  Em Cuba há  essa restrição à liberdade. O difícil seria imaginar o contrário, num país que estivesse a instaurar um novo regime social. Não são permitidos actos práticos que visem o retorno à exploração capitalista, como também nos países capitalistas não se permite que se pretenda reinstalar a servidão, a escravatura, o canibalismo, etc. Claro que um canibal tem menos liberdade onde o canibalismo seja proibido e muito pode chorar pela liberdade perdida. Temos pena…

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MESTRES NA CONTRACENA

Posted by J. Vasco em 19/03/2010

O Teatro dos Aloés tem em cena uma interessantíssima peça do italiano Spiro Scimone, intitulada O Saguão. Há nela uma estranha mistura entre o universo de Beckett e o humanismo de Chaplin. Os sentimentos mais profundos emergem das situações mais anódinas e desesperantes.

O Teatro dos Aloés já leva trinta anos de existência. Num quadro de franco desinvestimento na cultura, a sua gente persiste e insiste, a poder de amor, entrega e trabalho, em mostrar a sua arte às populações dos subúrbios lisboetas. Sem pedir nada em troca. Apenas pelo gosto de representar. E principalmente, como dizem nos seus textos, porque acreditam na utilidade do teatro enquanto espaço e tempo privilegiados de partilha de reflexões, questionamentos e sentimentos. O seu trabalho é altamente meritório, ainda que muitas vezes ignorado e insuficientemente apoiado.

E no caso particular de O Saguão, os dois actores (Luís Barros e João de Brito) que aí vêem numa fotografia de cena são de alto quilate. São mestres na contracena e na inter-relação. Dão às suas personagens uma dimensão humana comovente.

 

Exibições da peça:

17 a 28 de Março – Recreios da Amadora
9 e 10 de Abril – Teatro Garcia de Resende (Évora)
7 a 9 de Maio – Fórum Romeu Correia (Almada)
16 a 27 de Junho – Teatro Meridional (Lisboa)

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CORRO SEMPRE EM DIRECÇÃO AO MAR

Posted by J. Vasco em 19/03/2010

Les quatre cents coups é um dos grandes filmes de François Truffaut. Um dos mais celebrados, também – e justamente.

«Quatre cents coups» é uma expressão idiomática francesa que anda perto do dito português «trinta por uma linha».

Antoine Doinel, na verdade, tanto recebe quatrocentos golpes, se adoptarmos uma tradução mais à letra do título do filme, como faz trinta por uma linha para fugir ao autoritarismo escolar, à indiferença familiar e à hostilidade envolvente.

O paralítico final do filme é coisa apenas ao alcance dos génios. (Satyajit Ray, que Jyoti Gomes já aqui recordou, ficou tão impressionado com ele que haveria de utilizar um dispositivo semelhante para o final do seu belíssimo filme «feminista» Charulata). Ali está tudo, em condensado: o sofrimento, a comoção, a esperança, a desesperança, a alegria, a tristeza. Tudo em suspenso. Momento de alívio, sim, mas como será o futuro?

E depois há todo o plano-sequência da fuga, longo, cumulativo, como a música indiana.

Para onde foges, Antoine?

Não sei, corro sempre em direcção ao mar.

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E TU, QUE «APRENDESTE» HOJE NA TV?

Posted by J. Vasco em 17/03/2010

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O MOMENTO PARA HOPPER: PRESENTE COM PASSADO E COM FUTURO (IV)

Posted by J. Vasco em 17/03/2010

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MC SNAKE

Posted by J. Vasco em 16/03/2010

Nuno Rodrigues, MC Snake, tinha 30 anos, uma filha de dois anos e vivia com a mãe, em Chelas, com quem «era casado», como gostava de dizer. Foi ontem morto pela polícia, por não ter parado numa operação Stop. Fica a pergunta de Sam the Kid: «O Snake era negro, rapper, de Chelas. Cria-se um estereótipo. Se fosse branco e usasse gravata, teriam disparado?». Aqui fica em Negociantes, com Sam the Kid.

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O LIBERALISMO É A AUSÊNCIA DE INTERVENÇÃO ESTATAL?

Posted by J. Vasco em 16/03/2010

«A estrada para o mercado livre foi aberta e mantida aberta por um incremento enorme em intervencionismo contínuo, organizado e controlado centralmente.».

Karl Polanyi, The great transformation, p. 140

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DIZ QUE FOI UMA ESPÉCIE DE CONGRESSO

Posted by J. Vasco em 15/03/2010

Para aqueles que se reúnem em torno de um programa político revolucionário de transformação da sociedade, os congressos partidários supõem e concitam todo um empenhamento efectivo na teoria, na penetração pensante da dinâmica objectiva e contraditória da realidade social. Como dizia um bem conhecido homem calvo, «sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário».

Nos dias que correm – e não por acaso -, a este esforço de fundamentar a acção política num conhecimento teórico adequado da essência da realidade objectiva sobre a qual se intervém é-lhe atribuído, pelos filisteus, pelos opinion makers e pelos intelectuais on the rocks (isto é, de whisky na mão e de pedra na cabeça), um mimoso conjunto de apodos: «dogmatismo», «sectarismo», «teoreticismo», «cinzentismo». Numa versão mais expedita e expeditiva, esse esforço teórico é desta forma arrumado: «a cassete».

A isto opõem eles, por exemplo… os congressos do PPD/PSD, esse conclave televisionado de patuscos.

Aí, com efeito, não paira um grão de preocupação com a apreensão teórica da realidade (como Jyoti Gomes já mostrou aqui e aqui, a burguesia pode dar-se ao luxo de, para continuar a explorar, actuar apenas ao nível da superfície da sociedade). O que aí prevalece – e muito mais quando as hostes se agrupam, arrumam e rearranjam para «governar Portugal» – é o dichote, e a boçalidade, e a calúnia, e a sugestãozinha mal disfarçada, e a ambição e vaidade pessoais, e o disparate, e a estupidez pura e dura. Nenhuma ideia política clara e definida, nenhuma linha de rumo fundamentada e rica de conteúdo (mesmo do ponto de vista burguês) – nada. Apenas a ambição do poleiro; somente a reactualização do «Compromisso Portugal»; tão-só a vontade de espezinhar os trabalhadores e de servir com orgulho e com recompensas os capitalistas (redesenhando o estado ao sabor dos interesses burgueses, dando hoje a primazia a um determinado grupo económico, amanhã a outro e depois de amanhã talvez a um terceiro, mas, no conjunto, consolidando, fortalecendo e centralizando os seus interesses específicos de classe). «Pensar Portugal», dizia a consigna do congresso do PPD/PSD. Que pândegos!

E a comunicação social pela-se por isto. Promove, aplaude e elogia o ambiente alarve. E recomenda-o. E lá nos vai ensinando: isto sim, é «democracia», «liberdade», «espontaneidade», «desassombro», «coragem». Aquilo não, que é «dogmatismo», «sectarismo», «teoreticismo».

Pois!

 

* Os comentários sobre a chamada Lei da Rolha são dispensáveis. O Tempo das Cerejas desmonstrou aqui à saciedade que as sanções disciplinares (existentes em qualquer associação política, em geral) no PPD/PSD já existiam antes. Assim como no PS do «anti-estalinista» Canas, provedor das empresas de trabalho temporário, esses bastiões da democracia e do progresso social. 

 

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SALIF KEITA

Posted by J. Vasco em 15/03/2010

Salif Keita é um virtuoso músico e cantor do Mali, com 60 anos. Albino, sinal de azar na cultura Mandinka, sofreu na pele o ostracismo e a maldição, agravados por ser descendente da família imperial do Mali, situação que, por questões de berço, o deveria afastar do mundo da música. Aqui fica o admirável Fôlon.

Fôlon, é té nyinika
Fôlon, né té nyinika
Fôlon, a toun bé kè t’ni dén
Fôlon, ko kow koun bé kè
Fôlon, môgow ma koté

Kouma diougou bé môgo mi kono
Hèrè bi môgo mi kono
Kongo bé môgo mi laaaaa
Fôlon, kow ko koun bi la
Fôlon, é koun té sé kô fô.

Sissan, é bé nyinika
Sissan, né bé nyinika
Sissan, an bé bè nyinika
Sissan, ko kow koun bé kè
Sissan, môgow ma ko bala

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SOFRIMENTO(S)

Posted by * em 13/03/2010

Há uma ideia generalizada de que o sofrimento dos que se dedicam a determinadas causas seria prova suficiente da justeza moral da própria causa. Uma outra vertente desta mesma ideia identifica o sofrimento com a sabedoria: o sofrimento reflectiria sabedoria ou conduziria à mesma.

Esta ideia, de origem mística, funciona como um mecanismo de defesa que pretende compensar o sofrimento com uma vantagem de ordem moral ou gnosiológica. O sofrimento do mártir purificá-lo-ia e fá-lo-ia alcançar os cumes da sabedoria, com putativos bónus numa outra vida, seja em termos de proximidade ao senhor, seja em quantidade de virgens. O sofrimento faria ainda com que o sofredor entrasse em comunhão com todos os sofredores do mundo, o seu sofrimento exprimiria todo sofrimento do mundo. Cada sofrimento em particular irmanaria, assim, todos os sofredores e a causa do sofredor exprimiria a própria causa humanista do fim do sofrimento humano. Mas esta relação não é verdadeira! O simples facto de haver sofredores em ambos os lados da barricada, indica que a avaliação da justeza, justiça e sabedoria dos combatentes deve seguir outros critérios.

Podemos respeitar muito o sofrimento, mas não é verdade que a justeza das causas e a sabedoria dos mártires possa ser provada com o próprio sofrimento. O calvário por que passaram, ao longo da história, cristãos, judeus, minorias de todos os tipos, não fazem com que sejam automaticamente verdadeiras e justas a causas que possam defender; os anos de sofrimento dos lutadores comunistas contra a exploração não podem ser apresentados como a prova, per se, da justeza dos seus ideais; os pretéritos anos de luta clandestina e de cadeia de alguns renovadores comunistas (por mais que respeitemos esse sofrimento) não fizeram necessariamente destes mais sábios e mais justos (na sua maioria são até muito pouco inteligentes); o martírio de combatentes anti-comunistas não lhes dá autoridade moral para falar de justiça social nem reflecte um conhecimento superior do rumo da história. O sofrimento não reflecte  necessariamente  nem sabedoria nem rectidão. As greves de fome de opositores pró-capitalistas cubanos não faz com que eles deixem de ser defensores da exploração do homem pelo homem. Há sofredores que sofrem por ideais verdadeiramente humanos, há os que sofrem em defesa da exploração, há sofredores sábios e há sofredores pouco inteligentes, há sofredores bem  intencionados e há sofredores mal intencionados, há sofrimento inútil, reaccionário ou pernicioso e há sofrimento por causas elevadas. Há muitos tipos de sofrimento.

A ideia de que o sofrimento deve obrigar os demais, como contrapartida, ao reconhecimento da sabedoria, da inteligência, da  justeza da causa é uma posição que, longe de respeitar o próprio sofrimento enquanto sofrimento, apenas o vê como moeda de troca para obter um outro bem. O sofredor achar-se-ia no direito a usar o próprio sofrimento para comprar o que por vezes não tem: inteligência, sabedoria, pureza de ideais.  O sofredor, enquanto sofredor, é apenas…sofredor. Merece a nossa comiseração e ajuda no sentido de assistência para a diminuição possível do sofrimento. Mas ajudar não é apoiar. Só a avaliação integral e aprofundada de todas as implicações da causa a que se dedica a pessoa em concreto pode revelar outras qualidades da sua intervenção social e a dimensão moral do próprio sofrimento.

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VAZULINA

Posted by J. Vasco em 13/03/2010

Cabo-Verde. Lura, em versão de Vazulina do genial Orlando Pantera.

Zoi manxi sedu ku n`ganha na mon
Ta grabata na meiu di manduxu
Si ca staba ninhum tistonzinhu
Pe bistiba bazofu
Pe po rostu pa Praia
Djobi rapariguinha

Zoi, ki minina di Praia satadja
Toma-l si dez tuston kruzado
Ke teneba na si sakutelu
Pa ba disfrisaba kabelo
Ku penti di ferro kenti
Ku vazulina
Ku penti di ferro kenti
Ku vazulina

 

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«IA SE O AMOR AO LONGO DA VIDA ME NÃO TIVESSE SEMPRE TRAVADO»

Posted by J. Vasco em 13/03/2010

«Então com 17 anos pensei, aqui não fico, vou regressar a Lisboa, trabalhando e estudando vou longe. Ia se o amor ao longo da vida me não tivesse sempre travado.».

Armindo Nunes, 55 anos, actualmente a tirar o 12º ano

Em homenagem a Armindo, aqui fica a canção Eu gosto tanto de ti que até me prejudico, do grandíssimo e original músico e cantor açoriano José Medeiros.  

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«CUBA – A VERDADE DOS FACTOS»

Posted by J. Vasco em 13/03/2010

Desculpem os leitores a longa citação que se vai seguir. Na realidade, a reprodução na íntegra de um artigo de Ângelo Alves dado à estampa na última edição do Avante!. Acontece que, face à hipocrisia grassante na comunicação social, faz falta mudar a face ao disco, e este artigo cumpre essa função na perfeição.

Notem os leitores: no mundo da comunicação social do sistema, um morto do «mundo civilizado», das «democracias ocidentais», um morto representante «do nosso modo de vida», das causas da «democracia» e da «liberdade», é sempre humanizado, apresentado ao detalhe, com nome, família, sentimentos, percurso de vida, projectos, relacionamentos. As mais das vezes reconstituem-se mesmo as horas, os minutos e os segundos que precederam o momento da morte.

Já aos maus mortos – os mortos do imperialismo, os milhares de civis e de resistentes que tombam diariamente na Palestina, no Afeganistão, no Iraque, na Colômbia, a poder de «democráticos» e «livres» bombardeamentos, assassinatos «selectivos», execuções de populações inteiras, utilização de fósforo branco, torturas, checkpoints, humilhações e sevícias diárias – fica-lhes reservado o rodapé de telejornal, o anonimato, o número, a perda de identidade, o lugar do Outro, daquele que está excluído do mundo dos humanos. Quando não se chega ao ponto, coisa que não acontece apenas episodicamente, de elogiar e de encomiar a actuação dos bravos do pelotão da «civilização» ocidental. 

                                                      

Cuba – a verdade dos factos

«A propósito da morte de Orlando Tamaya desenvolve-se na comunicação social dominante, internacional e nacional, uma intensa campanha contra Cuba. Uma situação lamentável é aproveitada para fazer reviver o chorrilho de acusações e preconceitos anticomunistas e para dar fôlego às manobras de ingerência e tentativa de isolamento contra Cuba, o seu povo e a sua Revolução. Alguns dos que até ao momento da sua morte nem sequer sabiam da existência de Orlando Tamayo elegem-no agora como «mártir» da «luta pela democracia». Para tal ocultam convenientemente que as condenações de Orlando Tamayo nada tiveram a ver com questões políticas. Ocultam que Tamayo era um cidadão julgado e condenado desde 1993 por sucessivos crimes previstos na Lei e na Constituição do seu País como os de violação de domicílio, de agressão grave, de posse de arma, de burla, alteração da ordem e desordem pública. Ocultam que Tamayo foi libertado sob fiança em Março de 2003 e que foi novamente preso após reincidência e que nem a lista dos chamados «presos políticos», elaborada em 2003 pela então Comissão de Direitos Humanos da ONU como elemento de ataque contra Cuba, incluía o seu nome. Orlando Tamayo não era um preso político, reivindicou para si essa condição em função da acumulação de penas, e os grupúsculos da chamada «oposição» cubana viram na instrumentalização dessa sua opção uma oportunidade para recuperar da sua descredibilização, avançando com medidas como a da canalização de verbas da fundação cubano-americana para a sua família.

«Os mesmos que acusam Cuba de ter «assassinado premeditadamente» Orlando Tamayo ocultam que não há registo de maus tratos por parte do sistema prisional cubano. Ocultam que, pelo contrário, tudo foi feito para o tentar demover da sua greve da fome e que Orlando sempre foi acompanhado pelos serviços médicos cubanos, como o demonstra o facto de ter sido operado em 2009 a um tumor cerebral. Os que acusam Cuba de ter assassinado Tamayo são os mesmos que ocultam que a sua greve de fome foi incentivada por organizações como as «damas de branco», a fundação cubano-americana ou a rádio que ilegalmente transmite sinal a partir de Miami. A morte de Orlando Tamayo deve ser lamentada, este cidadão cubano não merecia morrer, mas os responsáveis pela sua morte são os que o incentivaram a levar a sua decisão até às últimas consequências. Os mesmos que destilam o seu ódio anticomunista a propósito deste caso são os mesmos que colaboram com aqueles que na ilha de Cuba, na base militar dos EUA de Guantanamo, mantêm, sem direito a acusação e a julgamento, presos que, como está sobejamente provado, foram e são submetidos às mais horrendas torturas, privações, maus-tratos e humilhações. São os mesmos que se calam perante os 30 470 cidadãos assassinados pelos paramilitares colombianos nos últimos 20 anos, perante o golpe de estado nas Honduras e o assassinato de militantes pela democracia, perante o criminoso bloqueio contra Cuba, a reaccionária posição comum da União Europeia face a este País ou a infame decisão da Administração Obama de incluir Cuba na lista de patrocinadores de terrorismo. São os mesmo que esquecem as centenas de vítimas cubanas do terrorismo norte-americano, os mesmos que fingem não ver as denúncias da infiltração de grupos de comandos colombianos na Venezuela com uma lista de execuções de dirigentes comunistas e progressistas venezuelanos ou que classificam como «um sucesso» os recentes massacres de dezenas de civis no Afeganistão.

«Mas esses que instrumentalizam a morte de um homem para prosseguir a sua ofensiva anticomunista têm dois problemas. O primeiro é a verdade: Cuba não é um Estado opressor e agressor e a sua população sabe-o bem. O segundo é a realidade: Cuba lidera, com outros países da América Latina, processos de afirmação progressista e de integração regional que estão a reduzir o campo de manobra daqueles que continuam a insistir na conspiração para manter o seu domínio na região.».

 

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O MOMENTO PARA HOPPER: PRESENTE COM PASSADO E COM FUTURO (III)

Posted by J. Vasco em 12/03/2010

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SEMPRE NA VÉSPERA DE EU CHEGAR

Posted by J. Vasco em 12/03/2010

De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

 

Maria do Rosário Pedreira, sem título, in Nenhum Nome Depois

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SER PRECÁRIO

Posted by J. Vasco em 11/03/2010

«Ser precário é ser pau para toda a colher. Ser precário é não poder ter ofício. Ser precário é eventualmente fazer estágios de profissionalização para animar as estatísticas do governo. Ser precário é não ter a certeza de arranjar trabalho amanhã. Ser precário é não ter direito ao subsídio de desemprego, mesmo quando já se trabalhou muito e agora não se tem trabalho. Ser precário é ser obrigado a fazer descontos mesmo quando não se ganhou dinheiro. Ser precário é receber um salário de miséria e engrossar o cabedal das empresas de trabalho temporário, muitas delas nas mãos dos boys e dos manda-chuvas dos grandes partidos. Ser precário é não ser contabilizado nas já extensas listas dos desempregados. Ser precário é trabalhar sem contrato e poder sempre ser despedido sem justa causa. Ser precário é estar sistematicamente «à experiência», por muito comprovadamente experiente que se seja. Ser precário é ser tratado como um profissional liberal quando se vive abaixo de cão. Ser precário é, quase sempre, não escolher ser precário. Ser precário é ter um livro de recibos verdes para evitar milagrosamente que os empregadores tenham de assumir qualquer responsabilidade na construção e manutenção da cadeia de produção da riqueza. Ser precário é não poder ter filhos, porque os patrões não gostam de grávidas, nem de mães competentes, nem de pais demasiado presentes. Ser precário é ser tratado como gado, mas sem ração assegurada. Ser precário é tapar os pequenos e os grandes buracos do capitalismo. Ser precário é não ter a certeza de poder pagar a renda, é ter a certeza de que o dinheiro não dá para todas as facturas. Ser precário é ter de comer menos e menos vezes por dia, excepto quando a família ou os amigos se compadecem. Ser precário é engolir a raiva, é chorar às escondidas para não dar nas vistas, é ter medo de ser etiquetado de rebelde, é ter pânico de que esse rótulo motive a perda de um emprego medíocre mas tão difícil de arranjar. Ser precário é ter vontade de ir para a rua gritar. Ser precário é ser obrigado a ir para a rua gritar. Ser precário é decidir ir para a rua gritar. No dia 1 de Maio. Com todos os outros companheiros precários que por aí andam escondidos. Com todos os que, revoltados com a crescente injustiça social e o aumento exponencial das hostes do precariado, se juntam ao desfile do MAY DAY. Ser precário é, de súbito, ter consciência de que se todos dermos as mãos e batermos os pés, O MUNDO TREME.».

(Texto retirado do movimento/iniciativa May Day)

 

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«O SÉCULO PASSADO»

Posted by J. Vasco em 11/03/2010

Em 2004, por alturas das comemorações dos 30 anos da revolução de Abril, o inenarrável Durão Barroso disse que o país estava de tanga porque a revolução portuguesa tinha vindo interromper e destruir o crescimento económico dos chamados «anos dourados» do capitalismo. O ambiente social e político já tinha recuado de tal forma em 2004, que estas posições começaram enfim a ver a luz do dia e a ganhar direito de cidade no seio dos próprios órgãos saídos da revolução.

Seis anos passados, Fernando Pinto, director executivo (CEO, no linguajar yuppie) da TAP Portugal, veio a terreiro largar esta pérola: «eu considero que greves é algo do século passado».

Tem o homem razão.

Com efeito, foi no século XX que, nos países capitalistas, através de lutas duríssimas, os trabalhadores conquistaram o direito à greve. Foi no século XX que, nos países capitalistas, com a pressão da revolução social e através de muitas greves, os trabalhadores conquistaram vários direitos sociais: as oito horas de trabalho, as férias pagas, a segurança social, a consagração das funções sociais do estado, o próprio sufrágio universal (o princípio uma pessoa-um voto). (É de crer que nem o mais raivoso anti-comunista esteja disposto a abdicar, para si, destas aquisições históricas do movimento operário). Foi ainda no século XX que o pressuposto básico da greve, o movimento organizado dos trabalhadores, se fortaleceu, consolidou e avançou, tendo chegado ao ponto de levar a cabo uma revolução social que não só efectivou e consagrou direitos, como iniciou a tarefa de erguer um novo modo de produzir e reproduzir o viver comunitário: o socialismo. Tudo isto influenciou decisivamente o surgimento e o desenvolvimento das lutas de libertação dos povos colonizados (Ásia, África, América Latina). Tudo isto foi no século XX, o tal «século passado» de que fala o sr. CEO com um misto de desprezo e de nervoso miudinho.

Percebe-se que assim seja. Fernando Pinto (e Ricardo Salgado, e Belmiro, e Jerónimo Martins, e Américo Amorim, e os representantes políticos dos seus interesses: PS, PSD e CDS-PP) quer voltar aos séculos anteriores ao «século passado». Nos seus sonhos, ele imagina e projecta uma sociedade pré-século XX: uma sociedade com trabalho escravo, sem horários, sem direito à greve, sem organização dos trabalhadores, sem sindicatos, sem a ameaça da sempre presente revolução social, sem o perigo do socialismo. Ele queixa-se do século XX, não em nome do século XXI, não em nome do futuro – mas antes em nome do passado, em nome dos séculos XIX, XVIII, XVII , XVI.

Não terá sorte. Por muito grande, intensa e violenta que seja – e é-o, de facto – a ofensiva social, económica e política da burguesia; por muito que o ambiente político envolvente seja – e é-o, com efeito – propício ao florescer e desabrochar das posições mais retrógradas e reaccionárias – a verdade é que não nos quebrarão a espinha.

Na luta do, e no, presente, o passado é parte e momento da luta.  

Pela nossa parte, ergueremos sempre bem alto a bandeira do «século passado».

Não porque tenhamos em vista um idílico regresso ao passado. Mas porque foi no século XX que se iniciou a luta decisiva, implacável, pelo futuro. Que outros continuaram. Que nós continuaremos. Que outros continuarão.

A despeito da vontadinha do sr. CEO. 

 

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O GRANDE LEGADO DE SÁ-CARNEIRO

Posted by J. Vasco em 10/03/2010

Quando dois bandidos ajustam contas, dão-nos a conhecer coisas interessantes:

«(…)Isto levou-nos, aliás, a rejeitar a integração em bloco do aparelho local da ANP no nosso partido, que nos foi oferecida por alguns dos seus ex-dirigentes nacionais (através de listas com nomes, moradas, telefones e tudo) – o que representou da nossa parte um belo acto de coerência e idealismo, mas que não foi recompensado pelos deuses: esse aparelho acabou por se passar quase todo para o PPD, que não teve dúvida em o aceitar, depois de riscados alguns nomes mais conhecidos, com o que ganhou definitivamente a primazia sobre nós em implantação local.»

(Freitas do Amaral, O antigo regime e a revolução – memórias políticas (1941-1975), Bertrand, p.185)

O sentimento de revanchismo e de ódio contra o regime constitucional português saído da revolução de Abril nunca abandonou esta gente, por mais verniz «democrático» com que se tentem cobrir para adocicar as suas posições políticas. 

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AINDA DAS AMÉRICAS: MÚSICA

Posted by Patrícia B. em 10/03/2010

Na última edição dos Óscares, The Weary Kind venceu a melhor música original por fazer parte da banda sonora do filme de 2009, Crazy Heart, realizado por Scott Cooper e protagonizado por Jeff Bridges. Consta que o vocalista Ryan Bingham, jovem americano do estado do Novo México, antes de se dedicar à música country/folk/americana era assíduo participante dos rodeos. A sua música reflecte esta e outras andanças e não deixa de evidenciar as influências de grandes nomes como Bob Dylan, Tom Waits, Johnny Cash ou Willie Nelson.

Fiquem com Southside of Heaven, de 2007.

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GROPPER – AR QUENTE, MUITO QUENTE

Posted by Patrícia B. em 09/03/2010

 

William Gropper (1897-1977), artista do movimento realista norte-americano do século XX, dedicou a sua vasta obra, entre pintura, cartoons, murais e vitrais, à denúncia arguta e destemida dos grandes problemas políticos e sociais do seu tempo. Quem descobre as semelhanças entre o ar quente de 1919 e o de 2010? Quando explodirá o monstro?

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VOLTAR

Posted by J. Vasco em 09/03/2010

Volver, de Carlos Gardel e Alfredo Le Pera, interpretado pela magnífica voz da granadina Estrella Morente. Para ter acesso à discografia de Estrella Morente, ver aqui o seu site oficial.

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TODO UM PROGRAMA (PARA A ARTE… E PARA A VIDA)

Posted by J. Vasco em 08/03/2010

ARTE POÉTICA

 A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

 

Mário Dionísio, Novo Cancioneiro, Poemas, 1941

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AS AVES LEVANTAM CONTRA O VENTO

Posted by J. Vasco em 08/03/2010

Um grande livro, publicado em 2008.

Sobre ele não se escreveu uma linha. Não para vergonha do autor, que é um escritor de mão cheia, mas antes do jornalismo cultural que temos, ocupado apenas com três coisas: garantir a saúde financeira dos grandes figurões mediáticos e das suas casas editoriais, legitimar a hegemonia do best-seller de comer e deitar fora, e promover medíocres escribas que nos querem vender como escritores criativos das novas gerações. Pelo meio, perde-se a oportunidade de analisar e de divulgar escritores que, pelo seu trabalho sério, criativo e original, merecem ser destacados. Jorge Carvalheira, com 60 e alguns anos, é um deles. O paciente e aturado trabalho de oficina; o conhecimento profundíssimo da literatura e da língua portuguesas de que dá mostras; a mestria técnica – fazem de As aves levantam contra o vento um dos grandes romances da literatura portuguesa dos últimos cinco anos.

O tema do romance é, porventura, inédito na ficção portuguesa – e pode explicar a raiz do silêncio à sua volta. Um militar que se exila na sequência do 25 de Novembro é coisa que, no mundo publicístico português, existe apenas, se não estou a ver mal, enquanto relato documental (lembro-me, nomeadamente, de Varela Gomes). Trata-se, porém, de um 25 de Novembro que tem história, que não se esgota em si, que tem passado (de séculos) e que tem consequências futuras. Acaba, por isso, por ser uma reflexão sobre a modernidade portuguesa, em geral, tendo como pressuposto inicial o 25 de Novembro.

Perante o romance, ficamos siderados, rendidos. Os traços essenciais da obra anterior de Jorge Carvalheira (O Mensário do corvo, ed. Quasi, e alguns contos na colectânea em dois volumes Memórias da guerra colonial, ed. Andrómeda) confirmam-se plenamente aqui, mas agora de uma forma mais sublimada, mais madura, mais certa de si. A influência e a apropriação criativa de Saramago são extremamente fortes, marcantes, estruturantes. O que melhor resulta nesse processo é que Jorge Carvalheira não pega numa forma pronta e acabada a aplicar mecanicamente ao objecto que trata. Não. Deixa que a lógica específica do tema sobre que se debruça determine as influências que vivem intensamente em si, situação que humaniza as persongens, os seus caracteres e as suas acções.

A influência de Saramago levada a este nível é coisa nunca vista. É relativamente vulgar encontrar uma linhagem faulkneriana: Rulfo e Vargas Llosa, nas Américas, Lobo Antunes e Marsé, na Europa. Uma sub-linhagem pode também ser encontrada, por exemplo, a partir de Lobo Antunes: Peixotos, Guedes de Carvalhos, etc. (qualquer português aspirante a escriba, em geral). Percebe-se: é uma escrita muito emotiva, cujas poética e musicalidade são particularmente belas e viciantes. Mas enquanto Lobo Antunes, por exemplo, não imita Faulkner – já que não autonomiza a forma, mas antes trabalha a realidade espacio-temporal portuguesa através da influência de Faulkner -, os Peixotos e os Carvalhos caem no exerciociozinho de estilo vazio, ou seja, imitam somente a forma (rebaixam-na a um jogo fútil e inconsequente), marimbam-se para tempo e espaço, para essa chatice da determinação histórica de uma situação.

Em relação a Saramago, não se encontra tal linhagem de seguidores. Porque a escrita não é de adesão tão imediata, é mais mediada, mais dobrada, porque o narrador apresenta um estatuto complexíssimo: conta-nos a história, conduz-nos, literalmente, aos espaços físicos e psicológicos, anuncia os procedimentos formais e estilísticos a que vai recorrer, varia as escalas e os pontos de vista, por vezes desaparece e não anuncia, por vezes desaparece e anuncia, etc, etc, etc. É uma escrita que exerce a sua influência, portanto, ainda mais do que na linhagem faulkneriana, através desta originalidade e genialidade formal. O perigo, por conseguinte, para o seu seguidor é precisamente o de cair nesta apropriação meramente estilística, oca, formal. E talvez devido a essa dificuldade não haja verdadeiros seguidores de Saramago. Até 2008. Até a As aves levantam contra o vento. A apropriação é aí verdadeira, é profunda, é filtrada e trabalhada pela densidade e espessura da personalidade e da vida do autor – a apropriação é revolucionária.

Outro aspecto interessante (e mais particular, no âmbito dessa influência geral) são as homenagens subliminares prestadas por Jorge Carvalheira ao seu mestre, quando ecoa, em breves passagens, obras ou asserções de Saramago. Para o atestar basta referir no romance a presença fortíssima, tutelar, de Memorial do Convento.

Disse ao início que o 25 de Novembro era visto neste romance no seu devir histórico e não como um momento isolado, abstracto. Ora, tudo isso é suportado, de maneira muito interessante, pela utilização de flash-backs, não tanto como procedimento metodológico de construção narrativa e dramática, mas mais como, digamos, idiossincrasia, visão e sentimento do mundo. Trata-se de uma eclosão triunfante do passado no campo do presente, de uma afecção da história geral e individual pelo passado. Em Jorge Carvalheira, note-se, é esta uma ligação orgânica, a de passado e presente, muito estreita e forte. Orgânica, no plano mais abstracto da inter-relação das duas categorias. E orgânica no plano da inter-relação entre história geral e história individual. 

Uma última referência, entre muitas outras possíveis. Continua a encantar-me, em Jorge Carvalheira, o conhecimento e o domínio da língua portuguesa que demonstra – tanto das suas expressões e ditos populares, como dos seus termos mais eruditos. Um verdadeiro escritor nunca pode dispensar esta dimensão: é o seu material de trabalho, é a sua ferramenta, é o ar que respira e de que se alimenta.

 

Olhe que não tem ligação (cf: LINKS) ao blog de Jorge Carvalheira, Ladrar à lua

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DA ABJECÇÃO

Posted by J. Vasco em 07/03/2010

Aqui, excelente post do Samuel no seu Cantigueiro. Cuidado, eles andam aí e não estão para brincadeiras.

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O MOMENTO PARA HOPPER: PRESENTE COM PASSADO E COM FUTURO (II)

Posted by J. Vasco em 06/03/2010

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SWEENEY TODD – AQUILO QUE O PASSADO PODE

Posted by J. Vasco em 06/03/2010

 «Eis-me nas planícies da minha memória, nos antros e cavernas inumeráveis e inumeravelmente cheios das espécies de inumeráveis coisas (…)».

Santo Agostinho, Confissões

 

Em tempos de Alice no País das Maravilhas, recordemos a última obra-prima de Burton: Sweeney Todd

Imagine o leitor que acaba de ligar a televisão. Fez, agora mesmo, um zapping distraído e indolente por vários canais generalistas e temáticos. Veja então, leitor, se não é isto verdade: assistiu, por certo, a um endeusamento (mais ou menos difuso, mais ou menos declarado, mas sempre presente) do «directo», da «actualidade», do «momento», da «ordem do dia». Repare que o problema para que chamo a atenção não se prende de nenhuma maneira com o dever, constitutivo de um meio de comunicação como a televisão, de fornecer um quadro da actualidade; também não reside numa inconfessada vontade de virar costas ao mundo em que vivemos, para passar à contemplação de uma mistificada imagem de um passado idealizado, que se constituiria como o depositário de todas as respostas aos problemas com que, quotidianamente, nos confrontamos. Nada disso – e bem pelo contrário. O que acontece é que essa visão do mundo (essa ideologia) televisiva, a que chamaria «presentismo», dominante tanto na informação, como na ficção e no entretenimento, porque apresenta a realidade como uma sucessão de presentes imediatos independentes uns dos outros, porque entende o passado como algo que inapelavelmente passou, porque absolutiza o «momento» e fragmenta o processo histórico – acaba, a meu ver, por não auscultar adequadamente a própria complexidade do presente, que aparentemente se propõe reflectir. E é por isso que, a cada passo, somos confrontados com o cansativo jargão do «novo», do «directo», do «em cima do acontecimento», erigidos, por si e em si mesmos, abstraídos de qualquer conteúdo, enquadramento ou perspectivação histórica, em valores absolutos do panorama televisivo. O que empobrece significativamente a compreensão do presente, no que toca à informação, e das relações e sentimentos humanos, no que respeita à ficção.

Onde entra então, a propósito deste tema do real enquanto unidade de passado, presente e futuro, o musical Sweeney Todd: o terrível barbeiro de Fleet Street, filme de Tim Burton que precede Alice no País das Maravilhas, sexto em que dirige Johnny Depp. Passado numa Londres vitoriana que traz à memória os ambientes dickensianos de Oliver Twist, onde a corrupção, o luxo e o arbítrio dos poderosos se opõem, como um abismo, à miséria e à fome das classes trabalhadoras, que tem este filme, em que a vingança, o amor, a violência e o sangue estão latentes desde o início, a ver com a questão do passado e do presente?

Muito, tem tudo a ver. Diria mesmo que o objecto central de Sweeney Todd é precisamente uma reflexão em torno do papel e do estatuto do passado. É um filme sobre o passado e a sua força, o modo como actua no presente e nos posiciona face ao futuro, ou seja, sobre um passado que verdadeiramente não passou, nem ontológica, nem psicologicamente (que vê Todd – Johnny Depp em magnífico trabalho – quando olha o fio cortante das suas navalhas do passado, se não o passado que carrega em si e que se reflecte, vindo de dentro, nos seus olhos?). E é por isso que o coloco ao lado de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, de O Salão de Música, de Satyajit Ray, de Barreira Invisível, de Terence Mallick, de Vertigo, de Alfred Hitchcock, de Era Uma Vez na América, de Sérgio Leone, e de Os Guarda-Chuvas de Cherbourg, de Jacques Demy. Todos eles sobre o passado. Todos eles, embora somente o último, como Sweeney Todd, um musical, filmes onde a música desempenha um papel fulcral na convocação do que passou mas está presente.

Tim Burton acaba por depurar, em Sweeney Todd, todo um conjunto de problemas que sempre o inquietou e entusiasmou e que já é detectável em filmes anteriores (o passado, neste caso enquanto infância, em Charlie e a Fábrica do Chocolate; o fracasso e a angústia, que obrigam a viver e a reviver o passado, em Ed Wood e em Eduardo Mãos-de-Tesoura, os três interpretados também por Depp).

Apenas duas notas mais, entre muitas possíveis, sobre a genialidade de Burton.

A primeira para relevar a espessura e a dimensão psicológica da Senhora Lovett (excelente Helena Bonham Carter). É a única personagem que, no meio de passados tão pesados e tão duros (que tenta destruir e que por isso a destroem), por amor a Todd, deseja um futuro, tenta projectá-lo e construí-lo. Se toda essa riqueza já se encontra na peça que Sondheim escreveu para a Broadway, penso que o filme de Burton explora de maneira mais fina a personalidade da Senhora Lovett. É o caso, por exemplo, da magistral utilização de um flash-forward, na óptica volitiva da Senhora Lovett, único vislumbre de futuro que temos no filme, por oposição aos vários flash-backs operados a partir do ponto de vista de Todd.

A segunda para assinalar o inconfundível touch de Burton, quando no último plano do filme, com um simples movimento de câmara, com uma mise-en-scene extremamente rica em sugestão visual e carregada de significado simbólico, com uma composição simultaneamente barroca e despojada, acaba por ecoar, no meio do mais trágico destino, a figura da Pietá, de Miguel Ângelo. Afinal, como parece dizer Tim Burton, eis o que o passado pode.    

                           

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VARSHAVIANKA

Posted by * em 05/03/2010

Em tempos implacáveis, tempos de violenta (verdadeiramente titânica) luta de vida ou morte, a capacidade de entrega à causa, de resistência e combate é levada ao limite. Sob esse prisma deve ser interpretada a muito severa letra desta canção, que moveu milhões.

Vikhri vrajdebnye veiut nad nami,/ Tëmnye sily nas zlobno gnetut./ V boi rokovo my vstupili s vragami,/ Nas eshchë sudby bezvestnye jdut. No my podymem gordo i smelo/ Znamia borby za rabochee delo/ Znamia velikoi borby vsekh narodov/ Za luchshii mir, za sviatuiu svobodu./ Na boi krovavy,/ Sviatoi i pravy/ Marsh, marsh vperëd,/ Rabochii narod./Mriot v nashi dni s golodukhi rabochii,/ Stanem li, bratia, my dolshe molchat?/ Nashikh spodvijnikov iunye otchi/ Mojet li vid ehshafota pugat?/ V bitve velikoi ne sginut bessledno./ Pavshie s chestiu vo imia idei./ Ikh imena s nashei pesnei pobednoi/ Stanut sviashchenny milonam liudei./ Na boi krovavy,/ Sviatoi i pravy/ Marsh, marsh vperëd,/ Rabochii narod./ Nam nenavistny tiranov korony,/ Tsepi naroda-stradaltsa my tchtim./ Kroviu narodnoi zalitye trony/ Kroviu my nashikh vragov obagrim!/ Smert besposhchadnaia vsem supostatam!/ Vsem parazitam trudiashchikhsia mass!/ Mshchene i smert vsem tsariam-plutokratam!/ Blizok pobedy torjestvennyi tchas./ Na boi krovavy,/ Sviatoi i pravy/ Marsh, marsh vperëd,/ Rabochii narod.

 

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O MUNDO DE CHRISTINA

Posted by * em 05/03/2010

(Christina’s World, de Andrew Wyeth)

A longitude materializada, o pulsar da distância, a força do intervalo que se nega com o olhar, o mirar que galga o que o corpo não consegue percorrer, a fraqueza e a força de uma ânsia pungente mas tranquila, o afã inquieto mas sereno, a harmonia dos vários movimentos quase imperceptíveis… tudo é belo, tudo é sublime neste quadro. Exemplo de como a obra pode transcender, em grandeza, o próprio artista.

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DE SOL A SOL

Posted by J. Vasco em 05/03/2010

Para protecção dos trabalhadores envolvidos, não se mencionarão os seus nomes, nem o da directora que os insultou, nem o da escola pública em que a situação ocorreu. Limitar-me-ei a descrever o essencial da situação, que reflecte, de resto, o que se passa pelo país fora.

Os trabalhadores em causa, técnicos superiores, trabalham oito horas por dia. Não têm estatuto de funcionários públicos, mas a avaliação do SIADAP já lhes foi imposta. As sugestões constantes de que são incompetentes, trabalham pouco e são desinteressados sucedem-se. Em várias reuniões, a directora da escola elogiou o regime de recibos verdes que vigora no privado – tanto em relação aos técnicos, como no que se refere ao corpo docente.

Ontem, numa reunião particular com uma trabalhadora com o objectivo de estabelecer competências a atingir no âmbito do SIADAP, reincidiu nos impropérios, e acrescentou esta pérola: «vocês não vestem a camisola. Isto é para cumprir as metas, não é para fazer horários de oito horas por dia. Se for preciso ficam aqui a trabalhar até às quatro da manhã, ou trabalham de sol a sol. E nem pensem em horas extraordinárias – porque eu não pago».

Quanto à fibra salazarenta da senhora, que até convive mal com o nome da própria escola de que é directora (o patrono é um escritor de esquerda) – estamos conversados. Qualquer pessoa com mais de quarenta anos em Portugal sabe o que significava trabalhar de sol a sol e sabe o que custou conquistar o horário de trabalho de oito horas.

Quanto à gravidade de que se reveste esta atitude em termos institucionais – nunca estaremos conversados o suficiente. Lembremos tão-só que um organismo público é um órgão do sistema constitucional português, saído da revolução de Abril. A constituição que temos já não é a de 2 de Abril de 1976. Mas mesmo depois de todas as desfigurações reaccionárias de que foi sendo alvo ao longo dos últimos 34 anos, ainda hoje ela não consagra o trabalho de sol a sol. Não porque a burguesia e os seus representantes políticos não o quisessem, mas porque os trabalhadores organizados, até aqui, o conseguiram impedir.

Mas a guarda não pode baixar. Eles andam aí. E andam aí porque a situação objectiva assim o permite, porque a burguesia está na ofensiva desde 1989-91.

Esta situação não é uma raridade no panorama laboral português. Ao contrário do que nos querem vender alguns patuscos, é o pão nosso de cada dia.   

Desenho de João Abel Manta

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ZÉ RAMALHO

Posted by * em 05/03/2010

Zé Ramalho, cantor brasileiro interessante. Logo, quase desconhecido em Portugal.

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POST ACTUALIZADO

Posted by * em 04/03/2010

O Post “Figuras, figurinhas, figurões” foi actualizado

https://olhequenao.wordpress.com/category/figuras/

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O MOMENTO PARA HOPPER: PRESENTE COM PASSADO E COM FUTURO

Posted by J. Vasco em 03/03/2010

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O FUNCIONÁRIO CANSADO

Posted by J. Vasco em 03/03/2010

A noite trocou-me os sonhos e as mãos

dispersou-me os amigos

tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo

e as casas engolem-nos

sumimo-nos

estou num quarto só num quarto só

com os sonhos trocados

com toda a vida às avessas a arder num quarto só

 

Sou um funcionário apagado

um funcionário triste

a minha alma não acompanha a minha mão

Débito e Crédito Débito e Crédito

a minha alma não dança com os números

tento escondê-la envergonhado

o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente

e debitou-me na minha conta de empregado

Sou um funcionário cansado dum dia exemplar

Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?

Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

 

Soletro velhas palavras generosas

Flor rapariga amigo menino

irmão beijo namorada mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho

palavras soterradas na prisão da minha vida

isto todas as noites do mundo uma noite só comprida

num quarto só

 

António Ramos Rosa, in “Viagem através duma nebulosa”, 1960

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ONDE JÁ SE FALOU DA PROCURA DE TRABALHO

Posted by J. Vasco em 03/03/2010

Waltzing Mathilda, originalmente canção popular australiana sobre um homem que percorre o campo à procura de trabalho com a mochila (Mathilda), seu único haver, às costas. Versão de Tom Waits, Tom Traubert’s Blues, com a sua inesquecível e inconfundível voz.

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POEIRA HUMANA

Posted by J. Vasco em 02/03/2010

A coisa Tavares, no seu programinha de ontem Sinais de Fogo (nome roubado ao grande romance de Jorge de Sena) com Gonçalo Amaral, exibiu-se, no seguimento do que nos tem habituado, ao seu melhor nível: foi malcriado, petulante, caceteiro, reaccionário, e defendeu os seus amigos e companheiros de sempre – os ricos e os poderosos – com inegáveis galhardia e valentia. Compare-se apenas esta actuação «corajosa» e «valente» com a da semana passada, em que se fartou de mimar e acarinhar Sócrates.

O facto da coisa Tavares ser uma estrela luminosa do panorama mediático português diz bem do estado lastimável, em termos de racionalidade crítica, a que chegou o país. É um significativo sinal dos tempos. 

A sua tão apreciada agudeza resume-se afinal a um lamber as botas aos ricos e poderosos; a sua tão proclamada independência esgota-se num aristocratismo elitista e decadente que odeia os pobres e os explorados; a sua suposta coragem significa tão-só que é um marialva de trazer por casa armado em menino rabino, apoiante das posições mais reaccionárias da sociedade portuguesa (são habituais nele termos e expressões como «corporações», «o conservadorismo dos sindicatos», «os professores são seres inúteis», etc.); o  desinteressado e abnegado cidadão dedicado à coisa pública não é mais do que um ridículo filisteu defensor de grandes e decisivas causas da humanidade como o tabagismo, a caça, o Pinto da Costa, o aumento da velocidade máxima nas estradas, a limitação do número de contentores no porto de Lisboa, e outros assuntos quejandos; o grande escritor não passa, na realidade, de um medíocre escriba que alinhava umas palavritas e que vende, como champôs e sabonetes, milhares e milhares de exemplares de lixo literário.

Um país que o acarinha já perdeu o mais importante: a sua dignidade. Ontem (e na semana passada), para quem tinha ainda dúvidas, mostrou que não é jornalista coisa nenhuma. É um comissário político das classes dominantes, um mero propagandista de turno das políticas de direita.

A coisa Tavares tem ainda outro defeito. Por ter quem tem como mãe, seria profundamente injusto chamar-lhe filho da puta. É pena. Chamemos-lhe então, pela força das circunstâncias, poeira humana. 

E, sobre isto, fiquemos com um post do Samuel, de dia 9 de Janeiro de 2009, que lhe peço emprestado do seu blog Cantigueiro:

«Parte-me o coração e revolve-me o estômago pensar que de cada vez que alguém compra um livro de poesia da grande Sophia de Mello Breyner, ou o maravilhoso conto “A menina do mar”, ou um disco com alguém a cantar a “Cantata da Paz”, ou qualquer outra canção, ou conto, ou livro de poesia da sua autoria, está, infelizmente, a dar dinheiro para este traste snob, arrogante, “macho lusitano”(*), reaccionário e trauliteiro, se encher de whisky até aos olhos, escrever baboseiras em jornais e depois vir esturrar o que sobrar, em caçadas aqui no Alentejo.».
 
* Sem ofensa para os magníficos cavalos de Alter-do-Chão.
 

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