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Arquivos para a Categoria ‘Ministério da Deseducação’

O EXAMINADOR

Publicado por J. Vasco em 23/06/2011

Nuno Crato é o novel ministro da educação. Uma década a debitar rifões reaccionários, sem qualquer ponta de pensamento sério e minimamente profundo, surtiu o efeito desejado para a «carreira» do matemático.

Há uns anos, cinco ou seis, talvez, Nuno Crato publicou um arremedo de livrito que deu brado no meio filisteu, praticante que é, o meio, da conhecida cultura axilar (os livros debaixo das axilas, estão a ver?) e  da economia de pensamento. Resumia-se a uma catalinária de má qualidade contra as ciências da educação, em geral, apodando-as demagogicamente, para delírio embevecido das hostes obscurantistas, de «eduquês». O léxico neo-liberal, em Portugal, não hesitou e adoptou de imediato a expressão. Tudo o que cheirasse a estudo científico sobre a educação – como provam os trabalhos de Rui Canário, Domingos Fernandes ou António Nóvoa, estudo necessariamente pontuado pela complexidade, pela interdependência dos fenómenos, pela procura de caminhos novos - caía nas malhas nocivas do «eduquês», e precisava de ser removido a todo o transe da consideração. No seu lugar, devia ser erigido o «saudável senso-comum», que prescinde de «teorias» e de «complicações». O remédio para todos os males de que padecia o ensino residia na introdução de exames, de muitos exames, de exames a rodos. Exames do 1º ciclo à universidade.

O conteúdo político deste arrazoado era o mais adequado aos objectivos de privatização da escola pública. E por isso foi sendo acarinhado. A pobreza teórica de pensar o ensino sob a batuta exclusiva (e exclusivista) dos exames e da avaliação sumativa não é politicamente inocente (até porque as posições politicamente reaccionárias podem prescindir da riqueza teórica). A centralidade dos exames na educação, enquanto elemento nuclear e estruturante, assenta na lógica da promoção/exclusão; abdica de perspectivar a escola como um espaço de integração, que avalia formativa e sumativamente e que não desiste de ninguém; promove o elitismo e a competição; tem como objectivo maior seleccionar para cursos superiores exclusivamente os filhos das classes dominantes, perpetuando a exploração e contribuindo para a reprodução do sistema. 

Ao que parece, nos útilmos dias Nuno Crato falou da necessidade de mais e melhores exames e de como seria desejável acabar com o ministério da educação. Vindo dele, a reflexão faz sentido. Mais do que tudo o resto, Nuno Crato não passa de um simples examinador. Não é grande coisa, há-de convir-se, para quem tanto gosta de exibir a farpela de sábio.

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A HISTÓRIA CONTADA ÀS CRIANÇAS

Publicado por J. Vasco em 06/10/2010

«Portugal: um presente com passado». Trata-se de um manual de História e Geografia de Portugal, respeitante ao 5º ano da escolaridade obrigatória (se não contabilizarmos alunos repetentes, crianças entre os 9 e os 11 anos), e foi adoptado em várias escolas do país. Os autores são Júlio Coelho e Sebastião Marques, a edição é dos próprios, mas é a Leya Sebenta que o comercializa.

Abrimo-lo na p. 138 e, sobre a chegada portuguesa à Índia, lemos o seguinte:

«De início, os Portugueses foram bem recebidos mas, por causa das intrigas feitas pelos comerciantes árabes, que receavam perder o comércio das especiarias, passaram a ser hostilizados e não foi possível fazer qualquer acordo comercial com o samorim (rei) de Calecut.

Vasco da Gama regressou a Portugal em 1499.

D. Manuel ficou satisfeito com esta viagem de Vasco da Gama, mas, conhecedor da hostilidade demonstrada pelo samorim de Calecut, decidiu impor o domínio português no Oriente e no comércio das especiarias».

Nunca se trata aqui de tornar simples e acessível o que é complexo, tarefa que compete ao ensino para crianças. Só se vislumbra vontade de estimular o mito e de criar ranço nos espíritos. Malandros dos «comerciantes árabes», com as suas «intrigas»!

Rimos ou choramos?

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O FIM DO ENSINO RECORRENTE

Publicado por J. Vasco em 22/09/2010

Na semana passada, foi tomada pelo governo uma medida criminosa: acabar com o ensino recorrente. Qualquer adulto que pretenda, já a partir deste ano lectivo, inscrever-se no ensino básico ou no ensino secundário, poderá apenas fazê-lo ou nos cursos EFA (Educação e Formação de Adultos), ou num processo de reconhecimento, certificação e validação de competências (RVCC), ambos ofertas no âmbito do programa Novas Oportunidades. No primeiro caso, entre outras coisas interessantes, ouvirá falar do funcionamento técnico de um aspirador ou de um telemóvel; no segundo, certificará competências que adquiriu ao longo da vida, algumas de entre elas, muito possivelmente, o manuseio de um aspirador ou de um telemóvel. Note-se que nada disto, em si mesmo, é mau. Pelo contrário: o reconhecimento e a certificação de competências que muitos cidadãos adquiriram fora do contexto escolar é um bem que se deve intensificar e alargar, e, de certo modo, é mesmo uma obrigação da sociedade para com os seus membros (nesse sentido, as Novas Oportunidades até pecam por serem demasiado timoratas).

O problema está todo em absolutizar este ramo, abandonando a outra vertente, ou seja, desistindo do ensino escolarizado tradicional, constituído pelos saberes formais transmitidos secularmente (já para não falar da sua completa inexistência no seio mesmo quer dos cursos EFA, quer do processo de RVCC). Em lugar de se elevar o maior número de cidadãos aos patamares do cultivo científico dos saberes, tornando-o socialmente acessível, aprofunda-se o fosso entre os escolarizados e os não escolarizados.

O governo dos patrões, moço de recados do FMI, justificou este crime com a lei da oferta e da procura. Ainda que este fosse o critério a seguir para estruturar a educação de um país, um aspecto ficará sempre por resolver: quando um homem ou uma mulher  (unzinho ou umazinha que seja) de quarenta ou cinquenta anos, com uma vida de trabalho no lombo, sem escolaridade maior que o ensino primário ou preparatório, quiserem um dia aprender a sério ou geografia, ou biologia, ou física, ou literatura portuguesa, ou matemática, ou uma língua estrangeira, ou iniciar um percurso escolar sólido – quando esse homem ou essa mulher quiserem entregar-se a alguma destas coisas e recorrerem, para o efeito, a uma escola, o que terão? O que os espera? O funcionamento do aspirador e do telemóvel. Tudo coisas dignas, registe-se sempre. Em todo o caso, demasiado curtas para quem deseja o verdadeiro saber. 

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MINISTÉRIO DA DESEDUCAÇÃO

Publicado por Jyoti Gomes em 08/05/2010

Dar aulas a turmas com mais de 15 alunos é praticamente uma missão impossível. No entanto, em Portugal, por preconceitos economicistas contra a cultura, o número permitido chega a atingir, pasmem-se, o dobro, cerca de trinta alunos por turma! Imaginem o que é tentar acompanhar simultaneamente trinta alunos, cada um com as suas dúvidas, cada um com o seu ritmo, cada um com a sua personalidade. Quase não é possível, sequer, deixá-los colocar dúvidas, fazer perguntas sobre a matéria e responder às mesmas: cada aluno teria ao seu dispor, no máximo, três minutos. Qualquer professor sente essa dificuldade na pele todos os dias e faz o que pode para tentar superá-la, mas não é nada fácil. O actual número de alunos por turma é um completo absurdo. Pode-se mesmo afirmar que se o Ministério da Deseducação tomasse a medida (além da já tomada medida de aumentar a escolaridade para os 12 anos) de diminuir o número de alunos por turma, já estaria a fazer mais pela educação em Portugal do que fez com todas as medidas das últimas décadas.

Pois bem, vem agora um Secretário de deseducação, cujo apelido já indicia o que quer fazer com a educação neste país, dizer…dizer… escolham:

A) Que o Governo pretende diminuir o limite máximo de alunos por turma, contribuindo, desta forma, para o ensino em Portugal;

B) Que o Governo, embora compreenda a grave situação quanto ao elevadíssimo número de alunos por turma, não pode, neste momento, proceder a reformas neste sentido;

C) Que o Governo rejeita liminarmente toda e qualquer redução do limite máximo de alunos por turma, uma vez que esta pretensão se basearia na ideia falsa, de senso comum, de uma correlação entre a dimensão das turmas e os resultados dos alunos.

Escolheram? Acertaram? Pois, está-se mesmo a ver que já conhecem os tipos que nos governam!

Dá vontade de dizer duas coisas:

A)        Será que é verdade que usam mesmo, como critério para trabalhar como secretário de estado desse ministério, comprovativos de burrice e de sem-vergonhice?

B)        Ideia de senso comum é a tua tia, pá!

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